Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica: Brasília, terra da oportunidade, continua recebendo sonhadores

Conheça a história do mineiro Danilo, que antes de chegar à capital federal, passou pelo o Rio de Janeiro e Minas Gerais

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Paulo Pestana Publicação:08/05/2015 08:00
Em Brasília, até o cemitério, onde tudo finda, se chama Campo da Esperança. Desde os pioneiros, gente que chegou para morar no ermo, a capital é a tradução de uma vida melhor e hoje, já metrópole, ainda recebe sonhadores.

Foi assim com Danilo. Deixou o torrão mineiro pelo Rio de Janeiro; subiu na carreira e lhe foi oferecida uma vaga em Brasília. Repórter, veio atraído pelo noticiário político, pela intimidade com os poderosos. Mirrado mas ousado, fez amigos e se destacou; se fez importante, mais até do que algumas das pessoas para as quais segurava o microfone.

Nos incipientes anos da década de 1980 não havia o culto à personalidade de hoje, mas, sim, era uma celebridade. O tempo passou; ele acompanhou a história do país de perto, mas um dia tropeçou numa autoridade que não gostou de um chiste e reclamou para a direção da casa.

 A democracia ainda andava em cueiros; conheceu o olho da rua. Aos trancos e barrancos levou a vida como todos nós levamos quando não temos a imagem difundida pelo éter. Na verdade, ele se sentia mais livre, menos vigiado; outras cabeças falantes da tevê tinham ocupado seu espaço.

A esta época Danilo já tinha uma fazendinha bem próxima, onde criava galinhas, uns porcos e plantava hortaliças. Uma epifania o levou a fazer tanques para criar peixes; queria tambaquis, tucunarés, peixes nobres. Não deu muito certo porque havia vorazes tilápias, que acabam com alevinos de outras espécies.

Os peixes cresceram, mas as vacas emagreceram. Tempos difíceis fizeram com que ele partisse para o comércio informal: levou os peixes mais gordos para vender na Feira do Núcleo. E ali é no grito:
— É da água para sua mesa, freguesa!

E ainda ensinava modos de preparo — logo ele, que nunca havia fritado um ovo. Freguesia boa, uma pequena multidão se formou diante dele. Alguns peixes ainda se mexiam, um truque para mostrar que eles tinham acabado de sair do tanque.

De longe, um homem observava, mas ao contrário dos outros não mirava os peixes; só tinha olhos para o peixeiro. Não tinha um olhar agressivo e também não era flerte. Era um olhar que não dizia nada. Até que o vendedor se dirigiu a ele:
— E o amigo aí, não vai levar nada?
— O senhor não é aquele repórter?
— Sou, sim.
— E agora vende peixe na feira?
— É, peixe fresco. Vai querer?
— Mas o senhor não trabalhava na televisão?
— Trabalhei.
A segunda afirmativa derrubou as bochechas do homem, que não disfarçou o esgar e a frustração:
— Que fracasso!!

Tinha boa memória, mas era péssimo profeta. Temos um final feliz. Graças às tilápias ficou rico em outra atividade e agora só aparece na televisão de vez em quando, fazendo propaganda. Danilo veio a Brasília atrás de uma oportunidade; teve duas.
Tags: celular

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