Brasília-DF,
20/OUT/2017

Cronista comenta a crueldade que envolve o mundo da gastronomia

Destaque para a criação de gansos para o preparo do foie gras

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Publicação:22/05/2015 08:20
Muitas vezes quando a gente diz que alguém teve uma ideia de jerico está ofendendo o pobre quadrúpede. Pois a Câmara Municipal de São Paulo dá um bom exemplo ao proibir o paulistano de comer patê de fígado. E trata o foie gras como um prato frugal, desses que a gente mistura com gema mole de ovo.

A alegação é a crueldade ao qual os animas - patos e gansos - sofreriam por causa da superalimentação que faz o fígado crescer além da conta. Sem entrar na discussão dos direitos das aves, uma lei como esta não chega a Osasco ou São Bernardo - cidades coladinhas na capital paulista -, onde a iguaria pode ser produzida, vendida e consumida.

E a gente fica pensando aqui onde estão os protetores das lagostas e siris, que são colocados vivos na água fervente antes de virarem comida. E as ostras? Vão para a mesa ainda vivas; só morrem ao serem arrancadas da concha. Em Taiwan, conheci o camarão embriagado, servido vivo num molho em que se misturam ervas e saquê. Entra na boca se sacudindo todo.

A cozinha é muitas vezes cruel. Vi muita galinha ser degolada e, ainda assim, escapar correndo sem a cabeça, esguichando sangue como num filme de Tarantino. Foram todas para a panela e para o bucho. Também ficava impressionado com os guinchos dos porcos quando estavam sendo levados para o abate; mas a visão das costelinhas dava amnésia.

Mas há momentos de cortar o coração. Seu Pedro sempre gostou de cozinhar. Certa vez, ainda morando em Brasília, comprou um cabritinho para cevar. As semanas se passaram e as crianças da casa adotaram o bicho, que ganhou o nome de Arlete, embora fosse macho. O cabrito ia para todo canto com as crianças; ganhou todas as regalias de um animal de estimação. Só não podia dormir dentro de casa.

Arlete engordou, o couro ficou lustroso; estava no ponto para virar uma cabritada. Mas era já um bicho da casa e seu Pedro teria que arrumar outro cabrito. Pelo menos era o que os outros adultos pensavam. Mas ninguém perguntou a ele. Era sábado, ele acordou mais tarde e, com a casa vazia, olhou para o cabrito. Sem querer, um fio de baba pendeu pelo canto da boca. A saliva foi suficiente para levar o bichinho ao forno.

Mais tarde, as crianças e os outros adultos chegaram. Como sempre, foram direto ao cercadinho de Arlete. A netinha mais velha perguntou: "Vovô, você viu a Arlete?" Seu Pedro tergiversou: "Deve ter saído". Criança é insistente. Na terceira pergunta igual e já à mesa seu Pedro apontou para o varal onde pendurara o couro do cabritinho: "Saiu, mas deve voltar logo, porque ele deixou o casaquinho ali". E serviu pedacinhos do Arlete para todos.

P.S. - Voltando ao foie gras, era possível saborear um excelente patê de campanha na Capela do Chope, que ficava às margens da EPTG. O bar fechou e, agora, só é possível comê-lo sob encomenda no Cantinho da Tia Rô, da Quituart do Lago Norte (8191-5790).

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