Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica: colunista comenta o papel da mulher no meio do samba

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Paulo Pestana Publicação:17/07/2015 06:03Atualização:16/07/2015 15:26
A moça chegou de mansinho. O samba corria solto e, com um vestido justo que mostrava generosamente a abundância de curvas, ela atraiu todos os olhares e, de quebra, desafinou alguns músicos. O mais assanhado largou o chocalho e soltou um gemido gutural que misturava prazer e frustração.

Antigamente se diria que a morena era de parar o trânsito. Mas essa é uma daquelas frases anacrônicas, que perderam totalmente o sentido; o trânsito não anda de jeito nenhum. Poderia se dizer ainda que é uma mulher para 400 talheres. Mas, de novo, é frase datada, do tempo que jantares finos não eram servidos em balcões, com os comensais de pé e em fila. Boazuda - sim, o substantivo ainda está em voga.

Enfim, era uma roda de samba e a moça lembrava a vizinha de Dorival Caymmi - aquela que passa com o vestido grená, mexe as cadeiras para lá e para cá e mexe com o juízo do homem que vai trabalhar. Os músicos continuavam o samba; esqueciam a letra, perdiam o compasso, mas iam em frente. Nas mesas ao lado, no entanto, o assunto era um só: a moça.

Era mesmo bonita, a danada. E sabia disso. Fazia pose de naturalidade, mas tinha consciência de ser a responsável por todo aquele burburinho. Fingia que não dava bola para ninguém, mas flertava com a turba. De pé - sim, mulherão não senta; atrapalha a exposição, pode causar tumulto - ensaiou os primeiros movimentos, acompanhando a música de Geraldo Pereira - "mexe com as cadeiras, mulata, seu requebrado me maltrata".

Os exaltados, travestidos em lobisomens, uivavam para a lua cheia que iluminava a rua. As outras moças cochichavam entre si, enquanto vigiavam namorados e pretendentes. Foi aí que o fraldiqueiro mais conhecido das redondezas não aguentou: pôs o chapéu meio de lado, explorou o gingado que ele próprio reputa irresistível e atacou com a ferocidade de um leão:
- Preciso revistar você.
- Por quê?
- Acho que você roubou meu coração.
Óbvio que não colou. Como se vê, um leão de circo, desdentado e subnutrido, tratado a bolachinha no leite. A moça não se deu ao trabalho de esboçar um sorriso e voltou a sambar com fúria. A dona do estabelecimento, que não gosta de confusão, olhava desconfiada para os velhos clientes e, como no comercial de cerveja, pedia moderação. "Parece que nunca viram mulher", esbravejava.

Como aquela, só em revista, disse um gaiato. Com o passar do tempo, marmanjos iam se aproximando e eram rechaçados na mesma velocidade. A moça estava interessada no samba e alguém lhe ofereceu um agogô; parecia uma vaca no pasto sacudindo o cincerro. Não levava jeito para a
coisa e, diante do apelo da moçada, voltou a rebolar sem agogô. Aí ela leva jeito.

Neste ponto da noite, ocorreu o inusitado. Não uma, mas três moças, e vindas de mesas distantes uma das outras, passaram por trás da morena e apalparam-lhe a região glútea. À morena restou dar um sorriso de quem se acostumou com aquela reação feminina.
- Eu tinha que saber se era de verdade - disse uma delas. Era.

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