Brasília-DF,
21/OUT/2017

Crônica: colunista comenta a vida amorosa das pessoas da cidade

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Paulo Pestana Publicação:07/08/2015 10:55
 (Arte CB)


Cheio de espinhas, usando óculos e gordinho, a vida amorosa do meu amigo não era fácil na segunda metade dos anos 1970. Por mais descoladas que as pessoas fossem — é, o tal verão do amor chegou meio atrasado ao Brasil, e em plena ditadura — ele era sempre o último da fila; sorte é que era um autossuficiente de nascença, tinha aquela altivez dos toureiros. Nem mesmo a língua presa que provocava um cecear nas palavras o detinha.

Não era fácil pra ninguém. As moças ainda eram muito parecidas com as mães — aliás, sempre são; mas as mães de hoje eram as moças de antes, se é que me faço entender. O fato é que era difícil ir além do beijo e do amasso — e, em Brasília, quem não tinha carro, caso do meu amigo, tinha uma dificuldade adicional. Com todos esses embaraços pelo caminho, mas com coração indômito, ele desenvolveu a arte oral.

Só mesmo com muita lábia ele conseguiu sobreviver na selva do amor e do sexo daqueles anos. Não podia se queixar. Depois que as espinhas secaram, entrou para o time de basquete do Vizinhança, o que o fez emagrecer um pouco. Não conseguia as namoradas que queria, mas nunca ficou só; não confessava, mas marcava as moças desejadas com o ferro quente da memória. “Um dia eu chego aí”, prometia.

Naqueles anos, Brasília era formada por cidades isoladas. Ir — ou vir — do Plano Piloto a Taguatinga era uma aventura. Vicente Pires era uma grande horta, e no meio do caminho só havia a Churrascaria do Julio. Ir ao Gama era uma viagem; Planaltina, uma miragem. Traduzindo: cada cidade tinha sua vida.

Às sextas-feiras começava a caçada às festas. Como as boates eram muito caras ou exigiam certa disposição física para pular o muro do Iate Clube driblando os vigias, era mais garantido andar pelas quadras olhando as janelas dos blocos e procurar por luzes negras ou coloridas. Não havia vigias; era só chegar e subir. Penetrar e se misturar entre os convidados era uma arte.

O tempo passou e hoje o meu amigo é um respeitável senhorzinho. Continua usando óculos — mas são Pierre Cardin —, perdeu alguns fios de cabelo e continua acima do peso. Não é rico, mas subiu na vida, ganhou dinheiro, comprou casa e, principalmente, manteve a lábia que tantos lábios lhe renderam.

Mas é um sujeito diferente: tem a obsessão organizada de um serial killer. Com denodo, vai cumprindo a promessa feita a si mesmo, anos atrás, indo atrás de todas as moças que ele desejou nos tempos de rapaz e que, à época, rejeitaram seu carinho. Não importa como estejam hoje.

Semana passada, nos encontramos e ele veio logo dizendo: — Fiquei com fulana — o verbo era outro, mas era isso mesmo o que estamos pensando. — Só faltam sete — completou. É uma caçada tão abominável como a que vitimou o leão Cecil. Mas meu lado canalha quis saber se a fulana estava bonita como antes. Ele foi sucinto: — Você sabe, o tempo esculpe ruínas.

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