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17/OUT/2017

Em crônica da semana, Paulo Pestana fala sobre relação com a literatura

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Paulo Pestana Publicação:18/09/2015 06:04

Histórias nascem muitas vezes de um pequeno fragmento que fica martelando na cabeça ou está anotado em algum lugar. Erasmo Carlos confessou dia desses que tem vários cadernos com registros e recortes que ele folheia constantemente em busca de ideias para desenvolver; coisas mal resolvidas em algum momento e que precisavam de maturação.

Em woody allen – A documentary, filme com quatro horas de duração e que pode ser encontrado na Apple TV, o genial diretor norte-americano mostra seu método de trabalho para escrever um novo roteiro: uma pilha de recortes de papel guardada ao lado da velha máquina de escrever, onde ele junta anotações que, para qualquer um não fazem muito sentido, mas, para ele, são histórias completas.


Basta uma frase: “Um homem herda todos os truques de um grande mágico”, ele mostrou como exemplo. A partir daí, Allen cria um universo — sempre repleto de neuroses e outros medos, claro — que viram filmes inesquecíveis ou não, mas sempre relevantes; e vem fazendo isso há 40 anos, numa produção inigualável. E imaginar que um pé de vento ou uma faxineira trapalhona poderiam ter matado uma obra-prima ainda na origem!


Quando entro numa livraria ou biblioteca, invariavelmente, uma mesma pergunta vem à cabeça: Com tantos livros aqui, será que ainda existe alguma história a ser contada?


Mas é só abrir um livro que a dúvida se esvai; aconteceu recentemente diante de A garota do trem, escrito por Paula Hawkins. O suspense psicológico se desenvolve a partir de uma narrativa tensa e dividida, que revela mundos misteriosos e histórias de frustração, sempre sob o ponto de vista feminino, com personagens que mostram a irrelevância da vida doméstica, mas que amarram o leitor numa armadilha: não há como largar o livro até o desfecho. Nada mal para quem começou a escrever livros de encomenda, escritos sob pseudônimo.


Eis que a mocinha me encontrou no elevador outro dia. Não a conhecia, mas ainda assim ela perguntou: Por que você não escreve um livro? Imagino que todo mundo que lida com palavras — lendo ou escrevendo —já imaginou colocar uma história no papel, transformá-la num romance, quem sabe mudar o mundo com uma narrativa.


Quando mais jovem, imaginei mostrar meu retrato feito cão. Também tentei transformar pileques em textos. E imaginei narrar delírios em narrativas brutas, contar histórias que só eu enxergava, ainda que elas não tivessem a menor importância, sem qualquer exercício de estilo. Desisti. Ninguém ia querer ler uma maluquice dessas.


Trabalhar com o ajuntamento de palavras é labor frustrante, ainda mais nos tempos obtusos e objetivos de hoje, em que tudo está sendo transformado em apenas dois algarismos: zero e um. Hoje todo mundo dá palpite sobre tudo. Viramos todos Caetano Veloso.


Isso é bom, mas seria melhor se os raciocínios fossem desenvolvidos. E melhor ainda se alguém lesse. Dia desses, encontrei um amigo, aspirante a escritor, mas que nunca mostrou seus originais para ninguém. “Por que tanto segredo?”, perguntei. “O que me tortura é segunda edição”, respondeu. Não entendi e ele tentou ser mais claro: “Fico imaginando que meu livro possa ser tão ruim que não mereça uma nova edição”.


Acho que não vou sentir falta do livro dele.

Quando entro numa livraria ou biblioteca, invariavelmente, uma mesma pergunta vem
à cabeça: Com tantos livros aqui, será que ainda existe alguma história a ser contada?

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