Brasília-DF,
18/OUT/2017

Em crônica da semana, Paulo Pestana fala sobre a importância do botequim

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Publicação:16/10/2015 06:00

A mulher que não entende a dependência que um homem tem de ir a um botequim nunca vai ser uma boa esposa. É ali que os maridos deixam escapar boa parte das pressões do dia a dia, evitando que o lar seja contaminado pela pestilência e mau humor provocados por um chefe, um cliente — um sapo de difícil digestão, digamos assim.

 

Parece conversa machista e talvez seja mesmo. Mas é o extrato do desabafo ouvido no balcão, entre dois desconhecidos íntimos que trocavam impressões sobre a vida, enquanto a tevê, sem som, mostrava a novela. O mais grisalho, gravata afrouxada, apreciava um conhaque de gengibre para aliviar o peso do dia. O outro, jovem, ouvia mais do que falava. Bebia cerveja.

 

A conclusão: os maridos não querem uma Amélia em casa; preferem uma mulher como a do boêmio que voltou, aquele da canção imortalizada por Nelson Gonçalves, que libera o marido sabendo que, depois da boemia, é dela que ele gosta mais. Amélias e Emílias (do samba de Wilson Baptista, que sabia, como nenhuma outra, preparar-lhe o café) não têm mais serventia. O mundo hoje está cheio de geringonças que suprem esses talentos.

 

Às mulheres basta uma voltinha no comércio; uma comprinha qualquer e, pronto, fez-se a mágica. A vida fica muito melhor. Os homens carregam o fardo do provedor e, talvez por isso, morrem mais cedo; portanto, acrescento, merecem o purgatório do botequim. E algumas mulheres realmente não conseguem compreender esta necessidade.

 

Outro dia estávamos no Bar do Tião, excelente estabelecimento localizado no comércio do Posto Colorado, esperando pelo inefável torresmo de barriga. Éramos três.  Foi quando tocou o telefone e o escalado para ser o amigo da vez, com o mau humor peculiar dos amigos da vez, atendeu. Era a gerente (elas não gostam de ser chamadas de patroa).

 

Ele se levanta e começa uma discussão épica, digna do pinga fogo do Congresso quando tem um deputado do PSOL envolvido. Nós outros tentamos engatar uma conversa paralela, mas era impossível não nos preocuparmos com as veias saltadas no pescoço, as têmporas inchadas e o rosto já rubro do amigo, a ponto de ter uma apoplexia.

 

Já fazíamos as contas para saber se era mais rápido ir à UPA de Sobradinho ou a um hospital na Asa Norte, quando ele voltou à mesa. Esqueceu-se que era o amigo da vez e verteu o líquido do primeiro copo que encontrou em um gole. Respirou fundo. Nós, outros, fingíamos conversar — não valia falar de mulher ou sobre o gol que o Botafogo levou aos 50 minutos, tópicos doloridos.

 

Ele quebrou o silêncio: “Vou ter que ir”. Solidários e discretos, não perguntamos o por quê. Ele explicou: “os cachorros estão brigando lá em casa e a mulher está desesperada”. Antes de pedir a conta, porém, cotovelos na mesa, ele colocou a cabeça entre as mãos e proclamou a derrota: “um cachorro tem 15 dias de vida e o outro tem um pouquinho mais. É só pra me tirar do bar”. Era um homem infeliz. E preocupado em encontrar alguma blitz pela frente.

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