Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica da semana, Paulo Pestana responde crítica de machismo

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Paulo Pestana Publicação:23/10/2015 06:30Atualização:23/10/2015 12:40

Carmen Miranda, em 1932, gravou um samba de André Filho, o autor de Cidade Maravilhosa, que dizia assim: “Vivo feliz, no meu canto, sossegada/ Tenho amor, tenho carinho/ Tenho tudo, até pancada”. No mesmo ano, Noel Rosa escreveu: “Mas que mulher indigesta, merece um tijolo na testa”. Em 1930, Ary Barroso ganhou o concurso de músicas de carnaval na voz de Francisco Alves, que cantava: “Essa mulher há muito tempo me provoca/ Dá nela! Dá Nela”. Em 1974, logo ali, portanto, Simone gravou um samba de roda que diz: “Se essa mulher fosse minha/ Eu tirava do samba já, já/ Dava uma surra nela/ Que ela gritava: chega”.

A violência, além da pancada física, era humilhante. Francisco Alves, o rei da voz, em parceria com Jorge Faraj, gravou uma valsinha em 1936: “Certas mulheres que conheço/ Que vendem conforme o preço/ Os seus amores banais/ E eu volto a chorar pensando/ Que fui bem tolo te amando/ Pois tu deves ser das tais”. E Mário Lago, que quatro anos depois, com Ataulfo Alves, comporia Amélia, o símbolo da mulher submissa, treinou antes com Benedito Lacerda. A música foi gravada por Orlando Silva, em 1939: “Eras no fundo uma fútil/ E foste de mão em mão/ Satisfaz tua vaidade/ Muda de dono à vontade/ Isto em mulher é comum”.


A música popular é repleta de letras assim e se alguém acha que é coisa do passado é porque anda cultivando o salutar hábito de não ouvir funk, que é popular, mas não é música. E o fato de gostar de música não significa comunhão de ideias com os autores. Até porque muitas mulheres, de ontem e de hoje, participam da detração; Francisco Alves, que tantas músicas machistas gravou, derreteu corações femininos até a morte, em 1952, quando milhares de mulheres saíram à rua para chorar pelo ídolo.


Pois semana passada, neste mesmo espaço, ousei interpretar uma conversa de bar dizendo que hoje as Amélias e Emílias (esta, do samba de Wilson Baptista) perderam o posto porque os homens não querem mais saber das chamadas mulheres do lar; preferem uma que compreenda a necessidade que eles têm de encontrar os amigos num bar.


Carlão me deu razão; para ele, é uma imposição. Mas teve moça que não gostou e desabafou no email, chegando à conclusão que eu sou machista. Logo eu. Achou que eu comparei uma cafeteira moderna com o coador da Emília. E que teria dito que as mulheres não devem frequentar botequins. Logo eu.


O que eu acho de verdade é que anda todo mundo de mau humor. As pessoas perderam a leveza, a capacidade de rir de si mesmas, de olhar para o mundo com alguma gentileza. Estamos na era do compromisso obtuso: é preciso ter posição sobre tudo, desde que não seja diferente da nossa. Debate agora é briga. O “Homem Decente” anda desaparecido; foi substituído por amorais que defendem o indefensável, sem reconhecer que a bandalheira é irrestrita e metastática. É triste ver que as pessoas estão se alienando da vida para abraçar a política.

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