Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica: O vinil nunca perdeu sua qualidade

Mesmo com a tecnologia dos CDs, os vinis ainda são procurados

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Paulo Pestana Publicação:30/10/2015 06:01

 Loja de discos de vinil e fita cassete, na Asa Norte (Ed Alves/CB/D.A Press)
Loja de discos de vinil e fita cassete, na Asa Norte

O jovenzinho tinha aquele ar de quem sabe de tudo como todo jovenzinho destes nossos tempos. Óculos coloridos, franja deslizando pela lateral direita da testa com o cabelo frisado por uma chapinha, bigodinho com aquela penugem de trocador de ônibus, ele se aproximou do balconista da loja e perguntou: “Tem o disco novo da Roberta Sá?”. Sem responder, o rapaz, também com cara de sabido, esticou a mão e entregou o CD.


— não, eu quero o vinil — voltou a dizer o jovenzinho, com uma cara de desprezo para o objeto. “Já vi que você entende das coisas”, retrucou o vendedor. “O som do vinil é incomparável, muito mais rico e profundo”. E começaram os dois a desfiar teorias sobre o som dos antigos discos, enquanto eu fingia interesse numa prateleira ao lado e conversava comigo mesmo sobre imposições da vida moderna; exigências vazias, mas ao mesmo tempo imperativas para que se demonstre conexão com o mundo.
 
O vendedor podia até estar na posição malandra de vender o produto mais caro — um vinil custa R$ 90, contra R$ 25 de um CD — mas não parecia reconhecer no jovenzinho um otário, um malandro-agulha. Será que eles não sabem que não existem mais estúdios analógicos? E que ninguém mais usa amplificadores valvulados? Será que eles, que têm tantas certezas, não sabem que a gravação, mixagem e finalização de todo disco é inteiramente digital?
 
É até possível que uma gravação feita nas antigas mesas de estúdio tenha uma sonoridade diferente na reprodução analógica, por fricção (vinil x agulha) — mas isso vale para o bem e para o mal; também há sons analógicos que só se ouve no CD. Nas gravações modernas isso não é possível; o som é produzido em dígitos — e apenas dois — com auxílio de equipamentos que ajudam até na afinação do artista (o autotune corrige tudo; o mundo digital baniu os desafinados, até aqueles que têm um coração).
 
Me engana que eu gosto, diz o dito conformista, porém cínico. A produção industrial força o consumo e a mocinha da loja tenta me mostrar que eu preciso muito mudar o telefone celular, porque tenho uma posição. Pergunto qual posição. E ela me responde que eu sou uma pessoa importante. Retruco e pergunto se ela sabe quem sou eu. Ela: “Não, mas o senhor parece ser muito importante”. Pois sai com o celular velho no bolso, mantendo minha desimportância intacta.
 
Mudando de assunto...
A boa notícia da semana é a reabertura do Bar do Silvio, na 114 Norte, que, reformado, merece mais estrelas. A cozinha está mais ampla, mas as panelas continuam as mesmas, com aqueles amassadinhos próprios para a culinária popular brasileira. Sarapatel fresco e rabada foram os pratos principais dos primeiros dias, mas já esta semana o cardápio foi incorporado das demais especialidades: mocotó, mungunzá salgado, fígado alto cebolado, maxixe na nata... Com a nova arrumação e mais espaço, a rapaziada só não descobriu aonde ele escondeu a pinga de Januária que ficava embaixo do balcão que não mais existe.

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