Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica da semana, Paulo Pestana fala sobre a cultura do 'fiu-fiu'

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Paulo Pestana Publicação:20/11/2015 07:06Atualização:19/11/2015 17:04

Conheço uma mocinha que, quando está deprimida ou desgostosa, veste a calça mais justa de armário e procura uma obra — a maior que encontrar — para desfilar por perto. Os gritos entusiasmados, assovios e uivos dos trabalhadores a revigoram. Mas também conheço quem odeie um fiu-fiu e acredite que o comportamento é tão animalesco, ou mais, que o dos cães que seguem desavergonhadamente uma cadela na época do cio.


Eu assovio muito mal, portanto nem deveria me meter num assunto como esse. Mas descobri que há um movimento denominado “chega de fiu-fiu” na internet. Não me surpreende. Até porque nada na rede de computadores me causa espanto; ali cabe tudo — até o que não deveria caber em lugar nenhum.


O pessoal do movimento não acha a menor graça no assovio e diz que se trata de assédio sexual. Cantada também não pode; nem aquelas gastas e castas, como “esta é a nora que mamãe pediu”. Ou mesmo as poéticas: “seu pai certamente é um ladrão; roubou duas estrelas para fazer seus olhos”. Muito menos as de duplo sentido: “Seu namorado faz direito? Porque eu faço...”. Nem aquelas menos estúpidas: “Se você não acredita em amor à primeira vista, eu volto já, já”.


Na adolescência, tive um amigo que fazia anotações, no fundão da sala, tentando encontrar a melhor cantada para disparar no recreio. Posso dizer que dava certo. Até porque ele agia no atacado, espalhando brasa; eram três foras para um acerto. Se fosse hoje, estaria mofando numa cela ao lado daquela mãe que filmou uma surra no filho porque ele postou um vídeo da namorada nua nas redes sociais. Vá entender o que virou o mundo.


Acontece que dia desses fui à Rodoviária do Plano Piloto tirar um documento no Na Hora e passava pelo calçadão quando ouvi o fiu-fiu. E ouvi de novo. A curiosidade me fez virar a cabeça para ver quem era o criminoso que estava a perturbar a paz com o silvo; o átimo de segundo que durou o movimento foi acompanhado daquele flash preconceituoso que todos carregamos, embora poucos confessem — na minha cabeça, o sujeito tinha a cara do Zé Trindade no corpo do Wilson Grey, meus velhacos favoritos do cinema. E a explicação é que eu acredito piamente na definição de Nelson Rodrigues: “Todo canalha é magro”.


— E aí, gato; leva um guarda-chuva que vem água aí. Olhei para os lados rapidamente, mas não havia dúvida, era comigo. Não era uma mocinha, nem uma senhora. Nos anos 1960, seria classificada como uma balzaquiana; cabelos tingidos de loiro, mas com as raízes negras à mostra, sorriso largo e bonito, mas com dentes tortos; parecia simpática. Sorri, agradeci e segui em frente porque tinha hora marcada no guichê.


Mas foi só virar as costas para ouvir o fiu-fiu de novo, desta vez, acompanhado de uma exclamação: — Bundão lindo, hein?
Mas aí eu não virei de novo. Impávido, embora um pouco enrubecido, fui cuidar da vida e dei toda a razão para a moça que quer banir o fiu-fiu.


“Nada na rede de computadores me causa espanto; ali cabe tudo — até o que não deveria caber em lugar nenhum.”

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