Brasília-DF,
21/OUT/2017

Na crônica da semana, Paulo Pestana fala sobre "Inferninhos da nova capital"

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Paulo Pestana Publicação:04/12/2015 06:53
O ambiente era esfumaçado; cabeça baixa, olhar perdido, uma bebida forte e a íntima companhia da solidão. A melancolia se misturava à angústia; as únicas palavras que faziam sentido eram como punhaladas no ritmo do samba-canção. O ambiente dos inferninhos misturava a euforia dos perfumes baratos à tristeza mais profunda, a fossa; mas, antes ainda, era um mergulho interior.
 
O lenitivo vinha na forma de letras trágicas que, catárticas, pareciam saciar fantasmas interiores, num tempo em que a psicanálise se arrastava em cueiros. Hoje, a dor redentora do samba-canção está morta, soterrada pela lama tóxica de uma sociedade que se inverteu: o id está dando uma coça monumental no superego. Sofria-se com mais elegância.
 
O samba-canção era música para solitários, mas também para casais. A história social dessa época está no livro A noite do meu bem, de Ruy Castro, usando como pano de fundo histórias ligadas ao samba-canção, com artistas, cafajestes e demais personagens da noite carioca.
 
Ainda há quem confunda samba-canção e bolero. E ambos têm na raiz o romantismo melódico do século 19; se, nesse casamento, o samba perdeu a síncope característica, o son cubano foi amestrado. Mas o objetivo foi nobre: aproximar casais durante a dança.
 
O livro é uma crônica social e, assim, reserva algumas páginas para as primeiras horas de Brasília, que nada têm a ver com o samba-canção. Naqueles momentos, milhares de convidados compareceram à inauguração da capital mesmo sem ter onde dormir ou se arrumar e enfrentando grave escassez de casacas, o traje da época — houve quem se apresentasse com mangas mais curtas do que a etiqueta recomenda, outros estavam sem suspensórios, tudo anotado no caderninho dos colunistas sociais.
 
Um dos convidados teria enviado seu avião ao Rio de Janeiro apenas para buscar cabides. Também não havia engraxates, barbeiros, manicures, lavanderias. Até o candango-símbolo que fez o discurso em nome dos operários foi importado: era o barbeiro do poeta Frederico Schmidt, autor do texto lido na ocasião.
 
O livro ainda narra o episódio do frustrado show das vedetes de Carlos Machado, cancelado devido ao atraso das apresentações de artistas do rádio. Tudo verdade; difícil de acreditar é a tese de que o Rio de Janeiro ficou feliz de ter se livrado da sede da República para se transformar num balneário, tomando como base opiniões pessoais que, nos anos posteriores, seriam desmentidas na luta pela consolidação de Brasília como capital.
 
Melhor é a constatação de que a maior dificuldade para a nova capital se impor perante o mundo é que não havia boates. E é verdade: elas foram aparecer somente na segunda metade dos anos 1960, com Tabu, Iole, Mocambo, Americana, Zorro e mais duas ou três, até que nos anos 1970 surgiu a definição brasiliense para inferninho, o Xadrezinho.
 
Meio restaurante, meio bar, havia discretas mesas com bancos de espaldar alto que formavam pequenas e discretas cabines. No fundo, um quarto completamente sem iluminação — o breu — para casais que pediam mais que discrição, anonimato. Não havia músicos; a única testemunha era o garçom. Mas se ouvia até samba-canção.

“Milhares de convidados compareceram à inauguração da capital mesmo sem ter onde dormir ou se arrumar e enfrentando grave escassez de casacas, o traje da época”

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