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18/OUT/2017

Crônica da Semana: Paulo Pestana fala sobre o ano que vem como um novo amanhecer

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Paulo Pestana Publicação:25/12/2015 06:57Atualização:23/12/2015 16:18
O ano de 2015 se esvai e a gente fica aqui com esse gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Uma ressaca sem tamanho, provocada pelo vislumbre de uma mudança mas, como nos piores filmes de horror, o roteiro deu aquela guinada a favor da horda de monstros que invade a tela, massacra o mocinho e angustia a plateia. O Brasil é um filme que não dá certo; tem vilão demais.
 
Não quero saber de retrospectivas este ano. Chega das imagens barrentas do Rio Doce, das frases desavergonhadas e da imagem sem compostura dos políticos, da brutalidade irracional em nome das crenças religiosas, da impunidade para os espertos que vêm moldando uma sociedade ainda mais cínica, do recrudescimento da xenofobia.
 
Também não tenho nenhum interesse nas mensagens otimistas que marcam todo fim de ano. Desde que o Papa Gregório sumiu com 10 dias do calendário Juliano e instituiu uma nova forma de marcar a passagem dos dias, que nos obrigam a acreditar que dias melhores estão vindo. Talvez estejam nas calendas, época de pagamentos para os romanos, mas que não existiam para os gregos e ficaram como sinônimo de dias que nunca virão.
 
Dobrados os sinos, estourados os fogos de artifícios, espocadas as rolhas das garrafas de champagne (ou sidra Chuva de Prata, mais condizente com esses tempos vagabundos) entraríamos numa nova era. Somos impelidos a acreditar e a cantar que a esperança se renova, que a guerra acabou, que tudo se realize, como ensinam velhas canções.
 
Nos abraçamos, todos de branco e com cuecas novas, enquanto não chega o jornal do dia seguinte mostrando que a única coisa diferente é o último algarismo na data. O brasileiro tem se revelado um revoltado cibernético; reclama, protesta, xinga, mas não se mexe.
 
E o conformismo vence, como na canção Ano novo, de Chico Buarque: “E quem for cego veja, de repente, todo o azul da vida; Quem estiver doente, saia na corrida; Quem tiver presente, traga o mais vistoso; Quem tiver juízo, fique bem ditoso; Quem tiver sorriso, fique lá na frente. Pois vendo valente, e tão leal seu povo, o rei fica contente, porque é Ano Novo”.
 
Na impotência e na imperfeição, vamos buscar momentos de felicidade nesta nova temporada, porque é assim, desequilibrada, que a vida segue; muitas vezes sem nos oferecer uma sombrinha colorida para enfrentar o precipício sob o fio de arame. E se a gente pensar que o ano nasce todo dia, mesmo sem champagne para anunciar, a vida fica mais fácil. Ao invés de desejar um feliz ano novo, prefiro que me anunciem um bom dia.
 
Há quem prefira desistir, mas talvez o caminho esteja mesmo na realização pessoal, desde que isso não signifique sair pisoteando o resto da humanidade como tantos têm feito. Aqui mesmo, no Correio Braziliense, o maestro João Carlos Martins resumiu em algumas palavras o que se pode fazer. “Eu corro, corro atrás dos meus sonhos. E tenho certeza que, algum dia, ele vão correr atrás de mim”.

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