Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica da semana: Paulo Pestana fala sobre a linguagem da dança

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Paulo Pestana Publicação:08/01/2016 06:01

Nuvens na calçada 

 

As duas moças chegaram juntas e procuravam onde se sentar no bar lotado, mas, antes mesmo de encontrar um lugar, a mais loura apontou discretamente para a mesa onde estavam os músicos: “É aquele ali”, cochichou. A menos loura fez que sim com olhos que não escondiam alguma dúvida. Sentaram-se e começaram a cantarolar, enquanto bebericavam uma cerveja não muito gelada, como pediram.

Na ponta do olhar das duas estava um senhor que está beirando os 88 anos de idade; muito magro, barba rala, camisa social com as mangas abotoadas nos pulsos, que tocava — como faz quase todos os domingos — um prosaico afoxé. Há muito ele deixou de lado o clarinete, para acompanhar o ritmo acariciando uma cabaça envolvida por contas amarradas, instrumento muito usado pelos grupos vocais desde os anos 1940, mas em desuso atualmente.

Valci não canta; mal solfeja alguns trechos das músicas mais antigas, quando fecha os olhos discretamente. No canto da mesa, ele empresta autoridade à roda do Grao, botequim que fica quase na ponta da Península do Lago Norte, porque ,mesmo que quase ninguém ali saiba, trata-se de personagem importante para a história social e cultural da cidade.

Foi presidente do Clube do Choro de Brasília, assumindo a vaga deixada por Avena de Castro — seu feito mais notável foi ajudar a convencer o governo a conceder o antigo prédio do clube para os chorões. Foi também presidente do Clube dos Previdenciários, onde organizou uma seresta dançante que acontece até hoje; e é onipresente nas rodas musicais.

Mas as moças não estavam ali por causa da biografia de Valci Barbosa. Provavelmente não conhecem nada dele, embora saibam o mais importante: é um grande dançarino, daqueles que não se encontra mais, capaz de fazer as parceiras se imaginarem num salão sofisticado, com candelabros e encerado a escovão, deslizando sobre nuvens — mesmo ali, em uma calçada de botequim.

Reza a lenda que ele era capaz de dançar a noite toda, deleitando não apenas a mulher em seus braços, mas a uma plateia que se formava imediatamente para assistir, extasiada, à donaire, aos movimentos suaves e sutis que comandavam os passos.

Hoje Valci anda economizando. Não deixa de dançar, mas não perde o lugar na mesa dos músicos. E não esqueceu nada; mantém o chame dos movimentos leves e a delicadeza dos passos, sem se deixar atrapalhar pela quebra de ritmo oferecida pelos muitos amadores que aparecem no lugar como se estivessem batendo lata num bloco de sujos.

Basta que ele se levante nas noites de domingo para que as moças fiquem entre excitadas e apreensivas, esperando o chamado que pode dar-se simplesmente por um olhar mais incisivo. A moça mais loura é mais saidinha — “Vamos dançar hoje?”, perguntou. Elegante, abriu o sorriso e os braços para embalá-la, enquanto a menos loura se distraía com a lábia de um rapaz que não dança nada mas não perde tempo.


Um senhor se vira para outra mocinha que via o espetáculo e, tirando simpatia da algibeira, compara: “Não parece um Fred Astaire?”. Sem olhar ela pergunta: “Fred quem?”.

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