Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica da semana Paulo Pestana fala sobre a noite na cidade

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Paulo Pestana Publicação:22/01/2016 06:02Atualização:21/01/2016 14:27

Psit, não acorde a cidade!

 

1 Boca era um grande companheiro. Principalmente aos sábados, sempre pronto para tudo; pelada de manhã, cervejinha no almoço, truco, uma soneca e... noite. Era ele quem incentivava as festas do pessoal da rua.

responsável por gelar as bebidas, com ele não tinha tempo ruim. Boca só tinha uma limitação: meia-noite. “Virou abóbora”, diziam os amigos, diante do sumiço repentino. Nunca se despedia. Saia à francesa — “para não incomodar”, explicava; tinha que conferir se a mãe havia tomado os remédios. Ela era também o motivo de não ter festa na casa dele e carregava mais um mistério: ninguém nunca a tinha visto.

As festas eram animadas; havia sempre um violão, um batuque. Até que a polícia bateu na porta. Pediu que parassem. A cena se repetiu algumas vezes em casas diferentes da mesma rua. Quando a festa era em outro local, ninguém batia.

Intrigados, os amigos foram pesquisar. Walter tinha um amigo policial que não teve nenhum pudor em denunciar o delator – um tal Luis Sérgio. Seria um vizinho? Ao olhar o endereço, Walter sacou: é o Boca.

E era mesmo: Boca, que nem tinha mãe, gostava de dormir cedo e em silêncio.

Constrangido, disse: “Água que não bebo, eu sujo”. Foi expulso. Tem muito Boca por aí.

2. Começaram proibindo o lança-perfume. Foi a primeira regra imposta à festa pagã do carnaval, uma celebração da irresponsabilidade total em três dias, onde valia tudo — “você pra lá, eu pra cá; até quarta-feira”, dizia a marchinha. E ninguém se chateava.

Homens respeitáveis quebravam todas as etiquetas — “tirou o seu anel de doutor pra não dar o que falar”, cantava o samba — para tudo voltar ao normal depois da orgia; afinal, para a religião católica, o fim do carnaval abre um período de contrição, jejum e abstinência.

Quem queria se proteger da alegria tinha a opção de ir para retiros, sítios e fazendas. Não precisa mais; Brasília vai para o livro dos recordes: o maior retiro do mundo, o novo cemitério do samba. “Aqui ninguém se diverte”, poderia dizer o anúncio oficial.

Chegou o dia anunciado por Gonzaguinha no rancoroso samba Comportamento geral: “e amanhã, seu Zé, se acabarem teu carnaval?”

Pois a folia virou negócio de cervejaria, bloco de sujo tem patrocínio e a festa tem hora pra acabar. Que cidade é essa?

Ficamos com as palavras de Aldir Blanc e o samba de João Bosco: “Não põe corda no meu bloco/ Nem vem com teu carro-chefe /Não dá ordem ao pessoal/ Não traz lema nem divisa /Que a gente não precisa/ Que organizem nosso carnaval/ Não sou candidato a nada/ Meu negócio é madrugada/ Mas meu coração não se conforma/ O meu peito é do contra/ E por isso mete bronca/ Neste samba plataforma/ Por um bloco/ Que derrube esse coreto/ Por passistas à vontade/ Que não dancem o minueto/ Por um bloco/ Sem bandeira ou fingimento/ Que balance e bagunce/ O desfile e o julgamento/ Por um bloco/ Que aumente o movimento/ Que sacuda e arrebente/ O cordão de isolamento.”

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