Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica da semana: Paulo Pestana dá o tom do Brasil

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Publicação:29/01/2016 06:55
A imagem do Brasil no exterior pode ser a lama que invadiu o leito do Rio Doce, os escândalos políticos em série ou a fama de mau pagador. Mas pode ser também arte. E bem que a gente, que macaqueia tudo, podia imitar a admiração que o resto do mundo tem pela criação brasileira.

Daniel Auner, premiado violinista austríaco, tem uma namorada brasileira. Por ela e para tocar com músicos brasileiros, que ele coloca entre os melhores do mundo, vem muito ao Brasil. Por ela, e para entender a música de Tom Jobim, aprendeu o português.
 
O fato de um instrumentista de renome procurar aprender a língua para melhor entender a música de um compositor é revelador, até porque Jobim não era um letrista. Ele escreveu algumas letras — inspiradas, aliás —, mas é essencialmente um músico; fala por meio de notas, não de sílabas.
 
Poucos brasileiros amaram tanto o país e seu povo quando Tom Jobim. E menos ainda foram tão maltratados. Ele mesmo dizia: “Carrego nas costas a cangalha de fazer música brasileira e me acusam de ser estrangeiro”. Hoje é nome de aeroporto, homenagem duvidosa.
 
E o austríaco tem razão: Tom Jobim é tão grande, e tão intimamente ligado às coisas brasileiras, que até a música dele se expressa pelo idioma. Detestava as versões em inglês para suas canções; tanto que aprendeu a língua do James Bond para ele mesmo verter; e como em tudo o que fazia, tentava descomplicar: “O inglês é aquela língua de índio, tudo muito simples”, dizia.
 
Recentemente, esteve em Brasília o maestro e bandolinista Ney Marques, que além de liderar o excepcional grupo instrumental Bandolim Elétrico, trabalha com artistas de todos os calibres. Uma de suas mais recentes empreitadas foi transformar em realidade um sonho da dupla Chitãozinho e Xororó, de fazer um disco só com canções de Jobim.
 
A incompatibilidade entre os gêneros — a sofisticação chopiniana de Jobim versus a rusticidade matuta — sugeria uma missão impossível, mas Marques achou que era possível. Foi o que ele definiu como “um trabalho de sonho”; difícil, mas de muito prazer.
 
O maestro mergulhou por mais de seis meses no projeto, partindo da definição do repertório — orientada por Edgard Poças, um dos maiores especialistas em Jobim — também inventor da Turma do Balão Mágico, vejam só.
 
O desafio era adaptar canções criadas sobre uma base tão sólida para serem cantadas em dupla, já que os sertanejos queriam manter a estrutura original. E a solução foi engenhosa; a segunda voz seguiria a linha de um violoncelo, o que muda a forma tradicional de cantar em terça, mas preserva as identidades do compositor e dos cantores.
 
O trabalho instrumental do disco Tom do Sertão é precioso; não houve economia de recursos para vestir a música de Jobim da maneira que ela merece ser ouvida. E deu certo. Para mostrar que música e a arte formam a verdadeira face desse povo varonil que tem fugido à luta mas não perde a esperança. Um antídoto perfeito para essa canalhada toda.

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