Brasília-DF,
21/OUT/2017

Crônica da semana: Paulo Pestana fala sobre um animal inusitado que um amigo encontrou

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Paulo Pestana Publicação:26/02/2016 06:09Atualização:25/02/2016 16:22
Correr na rua pode ser um perigo. Quem vê esse pessoal animado, de calção, tênis e garrafinha d’água na mão, nem imagina as ameaças. E não apenas por causa de maus motoristas, das intempéries e do risco de contusões para quem já passou da idade de fazer esforço olímpico. Os perigos estão à espreita, nas formas menos esperadas.

Meu amigo vinha pelo Parque da Cidade já na metade do percurso de 14 quilômetros que ele insiste em cumprir, mesmo já sendo avô, para manter o corpinho sarado. O esforço era evidente; cenho fechado, sem camisa, suado, ele irrompia pela pista interna do parque com a mesma e irritante disposição que o tira da cama todos os dias antes da aurora.

Ultrapassava outros corredores com facilidade, embora não estivesse ali para apostar corrida; o objetivo é manter a forma física — o que ele completa com sessões diárias de musculação em academia. De vez em quando precisava se desviar de algum ciclista que insiste em usar a mesma pista para pedalar; e patinadores.

Esses percalços fazem com que muitas vezes ele use trilhas, o que aconteceu naquela manhã, quando o parque estava cheio. E foi aí que o inesperado fez a surpresa: surgiu um animal mais do que selvagem, furioso. O bicho se colocou em posição vertical, abriu a boca e soltou um regougar estranho e tenebroso. Meu amigo parou.

A cena não durou cinco segundos, algo próximo de uma eternidade. A sensação de felicidade que sempre aparece com a injeção de seratonina e endorfina no sangue de quem corre desapareceu; mas ele ainda teve tempo de se lembrar da cena em que um urso imenso atacou Leonardo DiCaprio no filme O Regresso.

Ele nem pensou em se atracar ao bicho; preferiu dar no pé. Voltou em desabalada carreira com o animal no encalço, ainda guinchando. Meu amigo parecia o Usain Bolt e com muito custo deixou o bicho para trás, quando se permitiu sentar ainda assustado.
“Estamos em Brasília, capital, não é lugar para animais selvagens”, pensava. Foi quando os pensamentos começaram a se ordenar e a forma do bicho foi diminuindo para o tamanho real.

Não era um regougar, som das raposas, o que ele tinha ouvido; não era um urso, o que ele tinha visto. Era um saruê. Dos grandes, mas um saruê.
O saruê — que no sul é chamado de gambá-de-orelha-preta — tem hábitos noturnos, é solitário e só ataca para se defender; neste caso devia ser uma “saruá”, para seguir a lógica da mosquita presidencial, provavelmente defendendo a prole. Quando nervoso ele solta uma espécie de pum dos mais fedorentos — na verdade o odor sai de uma glândula.

São comuns os casos de saruê vivendo em casas — eu mesmo tenho um inquilino desses, que expulsou a família de morcegos que vivia no forro e de vez em quando quebra copos e garrafas das prateleiras — mas não são bichos amistosos. Que o diga meu amigo, que agora não sai da pista; prefere o risco de ser atropelado por um ciclista.

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