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21/OUT/2017

Crônica da semana: Paulo Pestana discute o poder da música

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Publicação:11/03/2016 06:00
O ritual é o mesmo e universal: antes de sair de casa, olhamos para o armário e escolhemos a roupa para a ocasião. Raul é diferente. O mais importante é escolher o bandolim que ele vai usar; e  ele fica olhando para os oito exemplares que tem à disposição, tentando imaginar o que quer aprontar para, só então, se decidir. E muitas vezes carrega mais de um.

A turba que o espera nas quartas-feiras da Turma do Gambá ou no domingo, na roda do Grao, muitas vezes nem nota a diferença, mas vibra quando ele chega, desembrulha um dos instrumentos e põe fogo no recinto com frevos e choros tocados de modo nada tradicional.
 
A fartura de instrumentos é tanto questão de oportunidade como de capricho musical. Raul vem se revelando um caçador de tesouros, escarafunchando a internet em busca de preciosidades, como o xodó mais recente, um Del Vecchio dos anos 1940, que ele comprou como objeto decorativo por alguns poucos reais.
 
O instrumento não serve mais para decoração, ganhou nova vida. Raul manteve o que pode da estrutura original, mas mandou cromar os metais e, claro, mudou a parte elétrica — o captador antigo ficou guardado como relíquia. Não foi a primeira vez. Já havia comprado um bandolim italiano da década de 1920, próprio para canções napolitanas. Também como objeto decorativo.
 
Raul não tem nenhum preconceito musical. Ex-estudante de conservatório, tem sempre uma surpresa quando chega sua vez de solar. Adora chorinho, mas tem no repertório canções românticas dos anos 1970 — Bee Gees, Bread, Michael Jackson — e até uma versão de O milionário, de Os Incríveis — nos próximos dias promete mostrar o arranjo que fez para Apache, dos ingleses The Shadows — o grupo que acompanhava Cliff Richards.
 
Esse ecletismo exige que Raul tenha instrumentos com timbres diferenciados. Seis deles são bandolins mesmo, embora distintos entre si. Os outros dois são considerados guitarras baianas. Embora, soteropolitano, ele reconhece que a guitarra baiana tem tamanho de bandolim, afinação de bandolim, tarraxas de bandolim e... é bandolim. A diferença é só a forma de tocar.
Mas o maior orgulho de Raul é o bandolim que ele encomendou a um dos maiores especialistas do mundo, o norte-americano Jonathan Mann, em outra oportunidade. No auge da crise econômica dos EUA, dólar a preço bom, pediu um instrumento de corpo sólido e com características que hoje ficaria difícil pagar.
 
Sorte de quem pode ouvi-lo. O jeito manso esconde um músico explosivo, sem pudor de usar overdrives e fuzz, entre outros recursos dos pedais que o acompanham, abrindo a cabeça de companheiros mais tradicionalistas, mas que parecem se divertir com as peraltices.
E ninguém mais se surpreende quando ele encerra um choro de Pixinguinha com um riff do Black Sabbath ou quando puxa uma tarantela para o meio da roda. Esse espírito já fez com que ele tirasse um tio em estágio terminal da cama de um hospital; foi quando ele começou a entender o poder da música. Que só não vence os intolerantes.

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