Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana: Paulo Pestana fala sobre expressões da língua portuguesa

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Publicação:18/03/2016 06:02
 
Há expressões que mereciam ser abolidas, mas por preguiça vão ficando, mesmo que não tenham mais pé nem cabeça. Foram usadas em mil novecentos e guaraná de rolha, no tempo do onça ou na época de Dom João charuto —  três ditos com o mesmo significado: coisa velha, da antiga, em desuso.
Tão velhas e ultrapassadas quanto elas próprias, já que não fazem sentido nenhum nos dias de hoje, principalmente para quem ignora que houve tempo em que garrafa de guaraná era fechada com rolha, onça era uma medida de peso e charuto era o apelido do rei que adorava uma coxinha de frango.
Os professores de português chamam tudo isso de arcaísmo, mas não deviam, porque esta também é uma palavra que caiu na vala do esquecimento. O fato é que ninguém mais deveria mais perguntar onde amarrou sua égua, porque em Brasília não tem vaga para estacionar nada, nem carro, nem equino.
Também não se pode acusar alguém que mudou de lado de vira-casaca, porque não se vê mais o traje nem em noite de gala; aliás, onde andam as noites de gala? E nem se pode mais dizer que entendeu tudo de fio a pavio, porque estão extintas as fiadeiras nordestinas que tratavam o algodão bruto até ele virar pano. Viraram máquinas.
Só nonagenários dizem que fizeram algo de escantilhão, embora não tenham feito, porque nada é precipitado nessa idade. Ninguém mais pergunta a graça de outra pessoa, quando quer saber o nome ou diz que alguma coisa está para cair da tripeça quando basta dizer que não funciona direito.
E isso tudo sabendo que escantilhão ainda é usado para manter o prumo de um muro em construção e tripeça, aquele banquinho com três pernas, pode ser encontrado à venda na Feirinha da Torre — embora continue sendo um perigo para bumbuns fora de prumo. Mas tudo isso faz parte do passado, de uma parte da língua que já morreu.
Mas algumas expressões permanecem vivas, mesmo sem fazer sentido. Implico muito, por exemplo, com o uso da expressão tira-gosto, quando se quer dizer quitute, aperitivo, acepipe, iguaria. Tira-gosto só fazia sentido no passado quando, ao ver alguém tomando uma talagada de pinga, a meninada se divertia vendo a careta do freguês em forma de vítima, tão ruim era o líquido.
Veja bem se há sentido em pagar R$ 14 por uma dose de cachaça da boa para fazer careta, enfiar um torresmo pela goela e ficar dando peteleco no próprio dedo, afogando tudo num imenso gole de cerveja barata. Tira-gosto carrega a própria definição: é para eliminar sabor ruim. Por isso, mesmo que seja uma questão semântica, prefiro pedir um petisco ou um antepasto. Valoriza a bebida.
E voltando ao palavrório, fico com o poema Língua portuguesa, de Olavo Bilac: “Amo-te assim, desconhecida e obscura,/ Tuba de alto clangor, lira singela,/ Que tens o trom e o silvo da procela/ E o arrolo da saudade e da ternura!”. Ainda bem que temos dicionários.

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