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17/OUT/2017

Em crônica da semana, Paulo Pestana fala sobre arte e regras de etiqueta

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Paulo Pestana Publicação:15/04/2016 06:02Atualização:14/04/2016 17:32

A redenção do palito

 

Nos tempos de antanho as casas da gente bem exibiam num canto da sala um objeto de porcelana fina, decorada e com furo no meio onde as pessoas podiam dar uma cuspidinha. As escarradeiras eram sinal de boa educação dos anfitriões e dos convivas, que caprichavam na mira na hora de expelir saliva e que tais.

Entre os prodígios de Leonardo da Vinci — que transformou a baranga Gioconda no primeiro símbolo sexual e criou protótipos do submarino e helicóptero — está a criação do guardanapo. Ele sugeriu aos Medici que pusessem à mesa um “pano individual” para cada comensal, evitando que limpassem a boca na toalha.

A etiqueta começou na corte francesa para deixar claras as diferenças entre nobres e burgueses, classe em ascensão econômica. Espalhou-se. Na Inglaterra, por lei, roupas roxas com detalhes em ouro só podiam ser usadas pela família real; em Portugal, leis determinavam o modo de tratamento de cada pessoa.

Muitas regras de etiqueta foram impostas à força. Frederico, o Grande, da Prússia, mandou que fossem colocados botões nas mangas das jaquetas para evitar que os soldados limpassem narizes escorridos. Até hoje os ternos têm botões que não abotoam nada, mas aliviam o trabalho do tintureiro.

Mas aí o leitor, já atarantado, pergunta onde eu quero chegar. Eis o busílis: é preciso resgatar o palito. O hábito de esgaravatar os dentes não pode ser comparado às nojeiras outras, mas desde que Danuza Leão escreveu o livro Na sala com Danuza, nos idos de 1992, o útil objeto pontiagudo foi banido. O livro, aliás, é provavelmente a obra em que mais vezes foram impressas as palavras “não” e “nem”.

Escreveu Danuza em seu ucasse: “Palitos. Não devia nem falar, mas vou. Nem pensar, mas nem pensar mesmo. Só escondida, trancada no banheiro, luz apagada.” E virou lei. A Gina, moça que aparece na estampa da embalagem, quase perdeu o emprego; e aumentou a agonia de quem pedia um frugal bolinho de bacalhau.

Nos bares, a porrinha — que já tinha perdido espaço com a proliferação dos isqueiros descartáveis — quase sofreu golpe mortal. Quem insistia no uso (mesmo com a boca fechada, discretamente) começou a receber olhares reprovadores, os mesmos que hoje se reservam aos fumantes.

O palito não existe para humilhar ninguém. Não é preciso chegar ao requinte do Nascimento, amigo nosso, que, até quando vai à praia, carrega três palitinhos junto ao elástico da sunga. Para eventualidades, naturalmente. Mas Nascimento não conta: até hoje ele usa capanga para levar documentos.

Os palitos estão voltando. Em embalagens individuais, como o sal e o açúcar. Mas restaurantes mais finos não os deixam à vista e o cliente tem que passar pela humilhação de pedir ao garçom, que provavelmente pede autorização ao maître. Tem mais: o fio dental pode até ser mais higiênico, mas não substitui o bom e velho palito fazendo cosquinhas na gengiva.

Ainda bem que a mesma Danuza escreveu mais adiante: “E não esqueça: todas as regras podem ser quebradas”. Antes um palito que vários tsc, tsc.

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