Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana traz referências politicas e sociais simuladas em um ambiente de bar

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Paulo Pestana Publicação:06/05/2016 08:51
Tudo por um caneco

Foi a nós apresentado como sendo um membro do nosso impoluto Corpo Diplomático, aquele pessoal com passaporte vermelho e acha que tem sangue azul. Tinha porte de autoridade, um jeito superior de quem sabe alguma coisa que ninguém mais sabe. Na mesa do bar, as reverências ao recém-introduzido foram as de sempre: ninguém ligou, ninguém sequer prestou muita atenção; todos os olhos estavam reservados para a tevê, onde o Botafogo esperava por mais um milagre, que afinal veio, com a classificação para a final. Quase todos. Havia olhos mais atentos no recinto.

Dono de botequim tem que ter pescoço de coruja e olhar de lince para saber o que se passa em 360°. O bom bodegueiro interpreta sinais, sabe da intenção do freguês; antes que ele peça mais um chope, a tulipa deve estar servida, suando, implorando por um gole para o creme não escorrer. O manual do botequim exige que ele tome conta do que acontece na retaguarda e nas mesas, principalmente quando chega um cliente novo.

Bodegueiro não acredita muito em recomendações; gosta de tirar as próprias impressões sobre o freguês. A vida pregressa do sujeito interessa, claro, mas não é preponderante para determinar o caráter do novato, o que é feito baseado em convicções insondáveis, onde vale mais o que não é dito. Não sei se é o alor ou qualquer outra leitura corporal, se é o jeito de falar ou a vestimenta, mas em cinco minutos o sujeito é devidamente escaneado, escrutado e diagnosticado.

Na mesa, o ambiente era o de sempre. Os famintos se refestelavam com uma rabadinha, os sedentos escorropichavam copos de chope e cerveja e todos falavam ao mesmo tempo. Nada de estranho. Mas o bodegueiro não tirava os olhos do recém-introduzido, que parecia deslocado com o mistifório.
De repente ele se levantou e fez um pequeno movimento que fez orelha do bodegueiro subir como a de um galgo que encontrou a toca da raposa. Despediu-se e foi para o estacionamento, tentando disfarçar um caneco, já vazio, atrás da perna. Teria êxito não revelasse o bodegueiro a perspicácia de um Auguste Dupin, o detetive de Poe.
Mas o nosso personagem não tem a fleuma do francês da ficção; está mais para uma mistura das trapalhadas do Inspetor Clouseau com a brutalidade de Philip Marlowe, de Chandler. Foi atrás do sujeito, bateu no vidro: “O senhor vai levar meu caneco?”, perguntou. O meliante diplomático tentou negar, disse que só ia mudar o carro de posição, mas não explicou por que levava um caneco vazio que não custa cinco reais.  

A mesa observava tudo com a fleuma habitual — e cochichos, óbvio. Ali, seguimos a recomendação de Ariano Suassuna e só falamos mal pelas costas — “pela frente constrange”, ensinava o mestre. O acusado acuado voltou para devolver o caneco; mas sem perder a crista — e dizia todos os palavrões que aprendeu no Instituto Rio Branco. Desde esse dia ele ganhou um apelido no bar, onde não aparece mais: Sobel, singela homenagem ao rabino flagrado com gravatas alheias.

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