Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica de uma cidade sem flores e seu jardineiro

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Paulo Pestana Publicação:13/05/2016 06:10Atualização:12/05/2016 16:07

Era uma vez uma cidade sem flores. Brasília ainda não havia sido inaugurada quando o presidente Dwight Eisenhower apareceu por aqui para lançar a pedra fundamental do que seria a embaixada norte-americana na nova capital.

 

O itamaraty preparava uma recepção no Brasília Palace Hotel, um dos poucos prédios já em pé, quando alguém reparou que não havia como decorar o ambiente. Naquele tempo os aviões não eram pressurizados e não havia como trazer flores sem que chegassem murchas. Estava criado o primeiro problema do cerimonial brasiliense: como enfeitar as mesas de jantar.

 

Era o tempo do “se vira, mas faz acontecer”. Um jovem funcionário da Novacap, recém-chegado de Piracanjuba, Goiás, e que gostava de caminhar pelo inóspito cerrado, teve uma ideia. Fernando Lopes — que mais tarde embalaria saraus boêmios no Catetinho interpretando boleros e irritando d. Sarah — foi para o mato e colheu pequenas flores ressecadas, que a olhos menos sensíveis pareceriam gravetos. Fez um pequeno arranjo e mostrou ao chefe.

  

A engenhosa ideia foi aprovada por Alfredo Ribeiro, que a levou a Ernesto Silva, que a submeteu ao próprio JK. Era a salvação. As mesas foram todas decoradas com as curiosas flores do cerrado, e estava criada uma tradição que acompanha a cidade até hoje.

 

Muitos anos se passariam até que Brasília conhecesse flores mais coloridas, completando o conceito de cidade-parque sonhado na prancheta de Lucio Costa. Ozanan Coelho, então diretor da Novacap, aceitou o desafio do então governador Joaquim Roriz para transformar os balões da cidade em jardins, multiplicando o que ele tinha feito em Goiânia.

 

Em tempo recorde, fez 800 pequenos jardins, coloriu a cidade, trouxe vida às rotatórias e, mais importante, desenvolveu uma produção de mudas suficientes para abastecer os necessários e periódicos replantios e que, ainda hoje, nos viveiros da Novacap, dão trabalho a um grupo de cegos. E mudou a cara da cidade.

Foi uma mudança radical e veloz, iniciada com mudas trazidas em dezenas de caminhões, e que deu um susto na população, até então acostumada à terra vermelha que subia em pequenos redemoinhos ou, quando muito, em gramados ainda incipientes.

 

Naquele tempo Brasília já vivia tempos obtusos, favoráveis aos imbecis, e não foram poucas as vozes que se levantaram contra os jardins. Diziam que era desperdício de dinheiro. Um dos mais ativos combatentes continua por aí, fustigando moinhos de vento.

 

Brasília e Ozanan venceram a ignorância com flores. Ele também foi responsável pelo plantio de milhões de árvores que transformaram definitivamente o perfil da cidade, alternando espécies frutíferas (mangueiras, jaqueiras, jamelões) e floríferas (quaresmeiras, ipês, acácias). Criou oásis por toda a cidade.

 

O velho jardineiro, que nos deixou há menos de uma semana, tinha suas predileções. Gostava dos jardins projetados por Burle Marx, mas preferia, tinha orgulho e gostava de admirar o balão que fica em frente à Polícia Federal, na 402 Sul. E tinha obsessão pela paineira e pelo flamboyant que irrompem no jardim do Tribunal de Justiça do DF.

 

Era de uma espécie rara, Ozanan: o homem-flor.


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