Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana aborda os sicofantas ou fofoqueiros

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Paulo Pestana Publicação:03/06/2016 06:40Atualização:02/06/2016 15:36
Um sicofanta entre nós

A noite estava fria como são as noites candangas de junho, mas não justificava o tamanho do casaco que o Luigi vestia. Ele chegou até nós, olhou para os lados acintosamente antes de se sentar e só quando viu que tinha atraído a atenção da mesa mais próxima é que falou com aquela voz de conspiração:

— fulano não resiste a mais um dia; o câncer é terminal.

O Fulano em questão não é um Cicrano qualquer. Trata-se de uma autoridade eleita, dessas que ganham um brochinho dourado quando assumem o cargo, e que estava ali sendo vítima de mais um delírio maldoso. O rapaz da mesa ao lado, que se mostrou tão interessado na conversa, nunca tinha visto o Luigi na vida, mas se apressou em pegar o telefone celular e ligar para alguém, certamente reproduzindo o mau agouro.

E a cidade passaria a conviver com mais uma notícia falsa. Nascia ali um boato.

Luigi é um sicofanta. Desde sempre. Quem o conhece não dá bola para as invencionices, boatos que ele ouve — até porque não teria imaginação para inventá-los — e reproduz, sempre ultrapassando o limite do improvável. Quer se passar por bem informado e é tão vítima quanto quem acredita nele. Mas não tem nada de inocente.

E antes que reclamem do substantivo pouco usual, não há um sinônimo que traduza exatamente o que é um sicofanta, mistura de fuxiqueiro com delator de intenção velhaca. É de origem grega, usado para denominar quem denunciava ladrões de figo que, pelo jeito, devia ser um crime seriíssimo por lá.

Tirante a etimologia, o fato é que Luigi não está sozinho; aliás, nunca esteve, já que nasceu e cresceu em Brasília, capital da maledicência oficial; formou-se administrador aqui mesmo, onde exerce modesta função. E o que não falta é sicofanta por aqui, onde boato tem preço, bem mais caro que a verdade. Na turma, há quem releve os atabalhoados informes; é um pouco doido, dizem; quer se dar uma importância que não tem.

Meu avô me ensinou que doido é quem rasga dinheiro. A definição é meio capitalista, eu sei, mas funciona. Inclusive com o Luigi, que é louco mesmo por uma graninha, briga na hora de pagar a conta e jamais dá gorjetas para a mocinha que nos trata tão bem. A fofoca, toda ela, é movida pela maldade ou pelo interesse. E ponto.

De tempos para cá, mudou o foco e virou ele um reles fuxiqueiro. Percebeu que ninguém tinha interesse nas notícias que trazia dos altos escalões, e que nunca se confirmavam, e passou a falar de pessoas mais próximas. Desde que ausentes, claro. Tenta esticar conversa, mas não tem interlocutor; quando fala, todos se calam. 

O Faixa, causídico de gabarito, traduziu bem o sentimento geral.

— O bar é um ambiente onde se fala tudo, principalmente mentiras, bravatas e pecados que não se conta nem para o vigário. Como a moda agora é delatar e gravar, a gente vira tudo siri — só anda de lado e não fala nada.

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