Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica da semana Paulo Pestana fala sobre crise econômica

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Publicação:24/06/2016 06:04

Ainda não são indicadores oficiais — desses apurados por Ipea, FGV e outras instituições. Mas são acurados: segundo as mais recentes medições do índice rabada, consolidadas pelos números do guia jabá, a crise econômica começa a arrefecer.

Depois de três meses em que a recessão mostrou sua cara mais feia e famélica, o movimento começa a se normalizar no Restaurante do Campos, no Mercado do Núcleo Bandeirante, baluarte da culinária popular brasileira na capital. O primeiro sintoma é que a clientela começou a sorrir, mas há dados mais concretos.

Em tempos normais, o estabelecimento serve 100kg de rabada por semana — com a crise, caiu para 30kg. Também são necessários 100kg de carne de charque semanalmente para fazer o jabá; a queda foi igualmente brutal. O gráfico está no vermelho, com a seta apontada para baixo.

Mas na semana passada o lugar começava a dar sinais de melhora, sob o olhar atento do proprietário — naturalmente, o Campos — que faz controle do estoque à moda antiga, de olho na voracidade da freguesia. Qualquer alteração, corre para o açougue; ele não admite enrolar os famintos com um — excelente, aliás — pirão.


Campos está em Brasília há 57 anos; parece cearense, tem cabeça de cearense, mas veio de Goiás mesmo. Formou os filhos que, mesmo com diplomas de engenharia e psicologia, dão sua contribuição no restaurante que, está no local há 40 anos.  prova bastante de qualidade, já que a concorrência é ferrenha, próxima e qualificada. A mistura de cheiros, aliás, é uma das delícias do Mercado no Núcleo.


O estabelecimento do Campos é famoso por oferecer feijoada três dias por semana — quintas, sextas e sábados — e pelo conteúdo nobre das malgas, destacando-se tal fartura de rabos, que deve ter causado a criação de varas de porcos cotós e leitões anuros. E, para mostrar compromisso com o freguês, nem o preço do feijão em alturas himalaias alterou o valor do cardápio.

O restaurante é também conhecido pela buchada, pelo cabrito ensopado e dobradinha desde os tempos que d. Santinha comandava as panelas. Mas as especialidades são o jabá e a rabada, debiques que mantêm o restaurante entre as melhores casas do ramo e, ao mesmo tempo, servem como orientação para o proprietário medir a crise e não desperdiçar mantimento.

Comida boa, atendimento simpático e eficiente, cerveja canela de-pedreiro (revestida com camada branca), quando chega o Beto, habitué cearense com todo o jeito de cearense, e despachante que acha que é humorista. Mas é o rei da piada velha.

— Macho, o cara estacionou a bicicleta na frente do Congresso. Veio o segurança e disse que não podia porque por ali passavam deputados, senadores e até ministros. Aí o cara disse: “Se preocupe não que eu vou botar cadeado” — ninguém riu; só ele, sem lembrar que já tinha contado essa, mais de uma vez.

Do jeito que chegou, foi embora para fazer uma fezinha no bicho e voltamos para a fartura das iguarias. Veio mais uma cumbuca de feijoada; desta vez ninguém reclamou da repetição.

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