Brasília-DF,
20/OUT/2017

Crônica da semana: Paulo Pestana fala sobre rodas de samba

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Publicação:15/07/2016 06:25
A moça é quase bonita. Faltou pouco. Mas ainda assim é daquelas que andam esparramando autoestima, incentivada, quem sabe, pela audiência pouco exigente das altas horas da madrugada. E mais: gosta de cantar. E ouviu quem disse que cantava bem.

Naquela noite ela chegou à roda de músicos um pouco mais tarde e bastante mais alta (não no sentido vertical, de medida, mas no grau etílico mesmo). Estava acompanhada de dois amigos, todos com bonés do MST e mãos sem calos; logo pediu uma cerveja e sentou-se.
 
Músico de rua é uma classe à parte entre os artistas. São diletantes, estão ali para se divertir, espantar os males. O cachê é apenas o momento solaz e não o aplauso do público cervejeiro em volta; vale mais a satisfação pessoal e, no máximo, a interação com os companheiros de solmização. É um caso em que os artistas são também a plateia.
 
Portanto, que ninguém chegue a essas confrarias com nove horas, exigindo alguma coisa ou com problemas novos. Estão ali para tocar, celebrar a música, cantar versos tristes mas ritmados e com a felicidade de quem expia seus lamentos.
 
E naquela noite não era diferente. Choros, sambas, valsas e até penetras estrangeiros estavam no repertório; músicos dividiam a primazia de puxar a próxima canção, quando a mocinha de boné do MST se aproximou.
 
Já era conhecida da roda, havia cantado algumas vezes, e o microfone foi passado para suas mãos quase bonitas. O rapaz do cavaquinho catava milho procurando o som do samba que ela pediu, mas, em vez de cantar, a mocinha, deu-se o direito de falar: disse que estava ali em defesa da democracia porque o Brasil, disse ela, não seria mais um país democrático.
 
Ela esperava aplausos, que vieram dos dois amigos que a acompanhavam, mas só deles. O que ela não esperava foi a reação dos músicos que, um a um, foram parando de tocar. O violão de sete cordas puxou a fila, sendo acompanhado dos demais. Os que continuaram pareciam mais distraídos do que engajados.
 
A mocinha de boné do MST não chegou a ficar inteiramente só, à capela, mas sentiu que, como no samba de Adoniran Barbosa, havia atravessado na contramão. Em roda de músicos há um acordo tácito de não se falar de política; desagrega, prejudica a já frágil harmonia de um grupo que, quando muito, se encontra uma vez por semana.
 
Ali, não importa se o sujeito é petista ou tucano, militar ou juiz, japonês ou goiano. A roda é respeitada como uma faixa de concórdia e paz, onde evita-se até tocar canções que podem ferir suscetibilidades —  Vandré, nunca de Gonzaguinha, só os sambões-joia; de Ivan Lins, quase nada (neste caso porque as harmonias complicam).
 
Depois do discurso, a moça puxou um samba tradicional daqueles de empolgar, mas não empolgou. Já era tarde, alguns músicos colocaram a viola no saco e saíram. Um pequeno grupo tentou continuar, mas não havia clima. A alienação da política destruiu a mágica. Mas domingo que vem tem mais.

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