Brasília-DF,
17/OUT/2017

Na crônica da semana, uma análise antropológica em um cenário de bodega

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Paulo Pestana Publicação:29/07/2016 08:00Atualização:28/07/2016 18:13
O jeitinho brasileiro já foi estudado, virado ao avesso, debulhado e esmiuçado. Nenhuma conclusão intelectual é satisfatória e ainda há muita discordância sobre esta característica nacional. Alguns pensadores condenam, fazem uma ponte direta com a corrupção e com a falta de escrúpulos. Outros enxergam nele um modo mais cordial de relacionamento e que ameniza a convivência.

Uma linha mais radical culpa o jeitinho pelo atraso cívico brasileiro, já que seria uma forma de driblar transformações sociais que aperfeiçoariam o país. E saem culpando a ataraxia dos índios, a miscigenação, os jesuítas e até o bom coração das pessoas (de onde veio a definição de homem cordial, criada por Sérgio Buarque de Holanda).
 
Eu, sem muito estudar e usando meu jeitinho, acho que todos têm sua parcela de razão. O jeitinho não é necessariamente uma vantagem, um quebra-galho; funciona — ou deveria funcionar — mais como cortesia e gesto de afeto. E, definitivamente, jeitinho não é malandragem, embora todo malandro use do expediente.
No boteco é assim. O jeitinho aparece ali com todo o seu esplendor, aproveitando a onda de camaradagem que circula nos estabelecimentos, especialmente os mais simples, os pés-sujos. E a forma mais notória, sem dúvida, é o choro. Não a música; nem o lamento de quem perdeu na cacheta, porrinha ou adedanha, esportes ainda populares à beira do balcão e que inexplicavelmente não estão representados nas Olimpíadas do Rio. O choro, no caso, é a derrama que acompanha a dose do destilado.
 
É uma tradição brasileiríssima. Experimente reclamar um chorinho no exterior para ver a cara de satisfação do barman, que vai continuar lavando um copo, como se fosse mouco. Fora das fronteiras brasileiras não existe choro; lá, a dose é um shot (tiro), na medida para ser engolida de uma vez, goela abaixo (e corresponde à metade da dose que nos acostumamos no Brasil, de 50ml). No máximo, o camarada vai lhe passar um pratinho com amendoim.
 
Para o dono do bar, o choro é uma espécie de cartão fidelidade. Quanto mais assíduo o freguês, mais generosa é a rebarba, e — importante — nem sempre o mais chorão leva vantagem; bodegueiro gosta de ter controle sobre tudo o que acontece no estabelecimento, exerce o poder com força de ditador e a melhor política é não contrariar.
 
Dia desses o nosso déspota apareceu com a novidade do bico dosador acoplado à boca da garrafa. Serviu a dose sobre o gelo que estava no copo e caprichou no choro, para satisfação do freguês, que logo comentou com os companheiros a súbita generosidade. Todos aplaudiram, menos o Gaúcho, que não sei se é maragato ou ximango, mas é desconfiado.
 
Sem ninguém perceber, foi ao balcão e pediu uma dose de uísque sem gelo. Servido, depois de consultar o Google, voltou para a mesa com ar superior. Descobriu que o bico dosador só derramava 40 mil da bebida, 10ml a menos. Foi o que bastou para a turma exigir a volta da pequena cuia prateada.
 
Taí a diferença entre jeitinho e malandragem.

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