Brasília-DF,
23/OUT/2017

Na crônica da semana: Brasília, cidade democrática e intolerante

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Paulo Pestana Publicação:05/08/2016 10:00
 
Acredite: houve um tempo em que Brasília não confundia música com barulho. Eram os anos 1970, plena ditadura; era preciso falar baixo e espiar antes de virar nossas esquinas imaginárias — o que servia para desmentir a bobagem de que por aqui não havia cantos de rua. Mas havia alguma liberdade para cantar e tocar, única saída para espantar o tédio da cidade adolescente.

Hoje, plena democracia, Brasília convive com a intolerância de uma cidade de fiscais de pijamas que tentam, com ajuda oficial de autoridades de ceroulas, abafar instrumentos e calar o canto brasiliense. A um só tempo a cidade emudeceu e ficou surda. Ou quase: ouve-se o alarido dos amantes do silêncio.
 
Naqueles tempos idos, Brasília vivia uma certa efervescência, com artistas pipocando pelos cantos; bandas como A Margem deixavam sua marca nos corações e nos muros, antecipando os grafites; temporadas de bolso no minúsculo auditório do Sesc da 913 Sul reuniam bandas e artistas incipientes, que tocavam diante de um slide cheio de óleo para emular uma psicodelia candanga.
 
Havia festivais de música que movimentavam grupos de jovens compositores, abrindo espaço para criações próprias que se perderam no tempo. Ninguém registrava quase nada naqueles tempos em que um rolinho de filme 8mm custava os olhos da cara e vídeo tape caseiro era ficção-científica; e as mesas de som eram tão ruins que tornavam praticamente impossível a gravação do áudio das apresentações.
 
Também não há registros documentais dos festivais promovidos por colégios e clubes; ninguém guardou uma folha de papel sequer. Foi perdida a memória de toda uma época da vida juvenil de Brasília, de um tempo em que grande parte das pessoas parecia estar aqui de passagem, como se fosse um estágio para a vida adulta.
 
Nem é grande coisa, não eram canções memoráveis; mas a cidade começava a engatinhar na sua busca por uma identidade própria, na libertação cultural a partir do cadinho que fervia ingredientes de todos os quadrantes. Ninguém achou que estava fazendo história ali; todos queriam se divertir, criar.
 
Esta cena já estava consolidada quando uma nova geração de jovens músicos começou a sair dos cueiros, sempre usando festivais de música como base. Um dos mais profícuos, figurinha fácil nos festivais, era o grupo Gente de Casa, que na época chegou a gravar um compacto (é, faz tempo) e, mas tarde, registrou um CD com canções selecionadas entre as mais de 200 composições próprias.
 
O Gente de Casa é uma espécie de Highlander da música brasiliense e se recusa a morrer. O grupo, que teve diversas formações — sempre em torno do duo Paulo Lins e Flávio Batichotte, depois reforçado por Denis Torre — quer reunir o maior número possível de músicos que passaram por ali para gravar um DVD que conte sua história musical. 
O grupo criou um site para o evento (benfeitoria. com/gentedecasa), tentando conseguir ajuda financeira por meio de um crowdfunding, que é o nome chique para a popular vaquinha. Mais que tudo, será o registro de uma época que parecia perdida na fumaça.
 

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