Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica da semana Paulo Pestana aborda assuntos que caem na boca do povo brasileiro

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Paulo Pestana Publicação:26/08/2016 06:21Atualização:25/08/2016 18:51

A indignação do Boca começou com o jornalista norte-americano que espinafrou o biscoito de polvilho. O artigo foi publicado pelo The New York Times, afirmando que o petisco mineiro, popularizado pelos cariocas, mas produzidos por paulistas, não tem gosto de nada. “Os caras ficam roendo aqueles pretzels e vêm falar mal do polvilho”, reclamava ele, entre um gole e outro de cerveja.

 

Ninguém deu muita bola para o Boca ou para a opinião do gringo, que aproveitou a Olimpíada para dizer que a culinária carioca também é meia-boca. Certamente não serviram a ele um camarão ensopadinho com chuchu, um filé Oswaldo Aranha ou um caldo de camarão com gengibre. Na verdade o que o gringo queria era provocar polêmica para vender mais um artigo. Só faltou nos oferecer espelhinhos e miçangas.

 

Ainda bem que chegou o Faixa. É o nosso causídico de ocasião, com todas aquelas opiniões formadas que só os jurisconsultos têm —  é preciso acrescentar que, em mesa de bar, advogado usa toga, tem poder de juiz. O foco da conversa mudou imediatamente para a decisão suprema que pode condenar a Lei da Ficha Limpa.

 

“É dia de festa na cadeia”, exagerou o rapaz que reabastecia a mesa, se metendo na conversa. Um que não podia ficar por muito tempo —  a alforria era só para comprar pão —  se ateve à disputa verbal dos ministros. Um dizendo que a lei tinha sido escrita por bêbados, o outro defendendo que era um texto sóbrio.

 

“Depois de ler isso a gente se sente mais normal; já vi brigas parecidas aqui no bar”, disse. Enfim, o Faixa se manifestou: “Estou do lado dos bêbados. A Lei pode não ser perfeita, mas deve ser melhorada e não desmoralizada”, afirmou, num tom que já não condizia com o estado etílico geral da roda. É o que dá chegar atrasado no bar; a gente está sempre uns graus abaixo.

 

Não se sabe como a conversa passou a versar sobre a seleção brasileira, o futuro do futebol e o baiano que ganhou três medalhas e ninguém se lembrava do nome dele —  só o Google nos salvou da vergonha. Isaquias não é um nome comum, mas está na Bíblia. Apesar do triunfo houve quem o criticasse, mas não pela performance. “Que cabelinho é aquele?”, perguntou o Sávio, certamente com uma ponta de inveja que luzia na careca.

 

Estranhamente ninguém mais quer falar de impeachment. Passou batido mais uma vez, embora a bandeirinha do PT continue tremulando ao lado do caixa do estabelecimento. Coerência, quando é demais, vira teimosia, mas a convivência entre os contrários, tão tensa nos últimos meses, deu lugar à tolerância. Deve ser parte do tal legado olímpico; o país ficou mais leve, já se pode conversar.

 

Acabou a novela e a vinheta de encerramento é a senha para a volta ao lar. O bar é a hora do recreio dos adultos. Pendura-se a conta, é servido um cravo para disfarçar o bafo de onça e há uma debandada. É a única hora em que o assunto acaba.

 

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