Brasília-DF,
20/OUT/2017

Na crônica da semana, diálogos de bar

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Paulo Pestana Publicação:30/09/2016 06:45Atualização:29/09/2016 17:21
Eu nunca tinha visto o rapaz. Nem vi por onde ele entrou, entretido que estava com minha própria e agradável companhia, uma cervejinha e um livro — no caso, Maigret entre os flamengos, de Simenon.  Mas o camarada nem notou que eu não estava sozinho e começou a puxar assunto. “Cheiro de hepta”, disse olhando diretamente para mim.

Fiquei sem entender por uns instantes, mas lembrei do título do livro, dei aquele sorriso que todos reservamos aos menos afortunados, e voltei à cena do crime. Em vão. O sorriso abriu a perigosa porta da simpatia. E ele voltou à carga, desta vez com uma frase feita que não quer dizer nada, mas com pinta de profeta de xepa de feira: “Não está fácil para ninguém”.

Num bar — mesmo num estabelecimento que você esteja estreando, como era o caso — não se deve desprezar ninguém; há uma regra tácita que manda ouvir, ou fingir que se está ouvindo, compreender a necessidade que algumas pessoas têm de falar, mesmo se você não tem o menor interesse no assunto. É quase um consultório. É a solidariedade da taberna.
 
E isso, ao que parece, vem desde a Roma antiga, já que Tácita era a deusa do silêncio e da virtude. É quem protege contra a inveja, palavras maldosas e energias negativas.

O rapaz, eu soube depois, tem um bom e estável emprego; funcionário concursado, não precisa correr atrás de voto a cada quatro anos e queria saber porque o Lula tinha dito a frase fatídica. “O que deu nele?”, perguntou por perguntar. Mas logo mudou de assunto quando a televisão mostrou mais alguma coisa sobre o ator morto nas águas do rio, e de novo quando a chamada do futebol apareceu na tela.

Conheço bem o tipo: é o que precisa ser ouvido. É como um cidadão numa pesquisa qualitativa, daquelas em que pessoas que nunca se viram são reunidas numa mesa e são convidadas a dar opinião sobre determinado assunto. E deitam falação sobre tudo.
 
No bar, a situação vai ao limite, porque o álcool libera uma quantidade maior de serotonina, o que aumenta o diálogo entre os neurônios, provoca excitação e inibe a censura.  

Perdi a esperança de retomar a meada do crime que o sagaz comissário Maigret tentava solucionar naquela chuvosa cidade da fronteira franco-belga. Até porque mais pessoas entraram na conversa do rapaz, mesmo sem sair da cadeira em que estavam. Ou seja: na base do grito.

A minha pequena folga estava arruinada; a única saída era me juntar definitivamente a eles. Mas não havia maneira de me encaixar naquela conversa coletiva, improdutiva como uma mesa redonda de futebol na TV.

Estava resignado, quando o garçom se aproximou e olhando o mesmo livro, comentou que o que mais gostava era a descrição dos pratos que a mulher do detetive prepara. E que pegou a mania que Maigret tem de deixar o relógio sempre 10 minutos adiantados para não perder a hora. Moral da história: o que salva o bar é o garçom.

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