Brasília-DF,
21/OUT/2017

Na crônica da semana: O drama de um dia sem celular

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Paulo Pestana Publicação:14/10/2016 06:55
Quando fechou a porta do carro teve uma sensação estranha. Ela tinha acabado de sentir-se com sorte; achou uma vaga no Setor Bancário Norte antes das nove da manhã e não precisou deixar as chaves com Joaquim, como faz quase todo dia. Mas havia algo esquisito. Bastou pôr a mão dentro da bolsa e bateu o pânico. A sensação era a de estar nua no meio da multidão que atravessa as galerias driblando os camelôs. Instintivamente apalpou o corpo como quem verifica se não está sonhando. Era real: ela tinha esquecido o celular em casa.
 
Não dava para voltar, ninguém estava em casa, nada a fazer; para os serviços do banco em que ela trabalha há telefone fixo, computador de mesa bem na frente, dois aparelhos de tevê ligados em canais de negócios. Ou seja: não faltavam canais de comunicação com o mundo. Faltava o celular.
 
Aquilo nunca havia acontecido. Nunca; ela nem se lembrava de como era a vida antes do telefone celular, muito menos de como era antes do telefone inteligente, que em português se traduz smartphone.
 
Passou o cartão na roleta e entrou no elevador como um zumbi, sem entender seu lugar no mundo. E se alguém ligasse? E se mandasse mensagem? Quando entrou na sala as recepcionistas viram a cara de velório, mas antes que começassem a apresentar condolências, ela foi anunciando, com voz de tragédia:
 
— Esqueci meu telefone em casa.
 
A comoção foi imediata. Uma onda solidária tomou conta do ambiente. Ela se culpava pelo erro imperdoável, quando chegou Alda. Na casa dos trinta, como a atormentada Julia de Balzac e, portanto, mais nova que nossa personagem, é tida como uma pessoa estranha: não tem Facebook, o telefone é o mesmo há anos, não tem marca, número ou letra, e só checa email duas vezes ao dia.
 
— Garanto que seu mundo não vai mudar daqui para a hora do almoço – disse ela, para espanto das colegas.
 
E não mudou. Desde este dia ela resolveu se libertar; não queria viver mais naquela tensão de entrar no Facebook o tempo todo, de comentar tudo, de responder recados imediatamente. Lembrou-se do primeiro dos 12 passos do programa de recuperação de alcoólicos, consciente da impotência diante daquele aparelhinho.
 
Foi em frente. Os segundo e terceiro passos também foram simples – acreditar num poder supremo que pode devolver a sanidade e entregar a vida a Deus; embora nunca vá à missa sem o celular.
 
Quarta, quinta, sexta e sétima etapas foram mais complicados, porque o desvio moral não estava claro na situação. Mas o oitavo doeu: lembrou-se de episódios em que prejudicou outras pessoas com o vício, e relutou diante do nono passo, que pede reparações pelos atos.
 
Nos décimo e décimo primeiro passos, ela viu que podia recair ao relutar em admitir falhas anteriores, mas chegou ao fim, certa de ter alcançado o despertar espiritual. Ela contava a luta contra a dependência quando entrou uma mensagem e não resistiu: parou tudo para ler. Vai ter que voltar ao primeiro passo.


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