Brasília-DF,
17/OUT/2017

Expectativa de vida: 125 anos é o tema da crônica da semana

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Paulo Pestana Publicação:04/11/2016 06:24Atualização:03/11/2016 15:35
Não adianta espernear, agora é oficial. Dificilmente eu, você, sua sogra passaremos dos 125 anos de idade. Desde 1970, a expectativa de vida não muda, o que é uma frustração para quem viu a longevidade humana galopar depois de séculos de pestes, doenças endêmicas e má alimentação, em consequência do desenvolvimento de vacinas, antibióticos e tratamentos.
 
A má notícia foi publicada pela revista científica Nature e, devo confessar, frustrou alguns planos que eu tinha para o futuro mais distante, como reler alguns livros, rever filmes que não entendi e conhecer as ilhas Tuvalu. Ao mesmo tempo, há um certo alívio em saber que não adianta querer se cuidar muito, balanceando alimentação, enchendo o prato de brócolis e couve e, principalmente, dispensando delícias.
Li a notícia em Vitória, Espírito Santo, sentando numa desconfortável cadeira de plástico do bar do Pezão (que, aliás, recomendo) com cerveja no copo e dúvida na cabeça — experimentaria a especialidade da casa?
 
O texto dirimiu todas as dúvidas: e expiou uma eventual culpa: pedi ao rapaz que me servisse um torresmo de barriga no capricho; sequinho, com um corte diferente, mais vertical, tudo numa peça só, sem farelinhos.
 
O quitute justifica a fama. Posso ter me apressado na decisão. Prosseguindo na leitura, descubro que nos tempos de Cristo, a expectativa de vida humana era de, em média, 30 anos; quase dois mil depois, nos anos 1900, a média subiu para apenas 46 anos, no Brasil. Em 2012, chegou a 74,6 anos. Quase fui ao banheiro para retirar o torresmo à força do estômago, mas resisti e pela enésima vez prometi que iria me cuidar mais.
 
Fico sabendo ainda que, na década de 1920, o número de mortes por ataque cardíaco nos Estados Unidos estava abaixo dos 10%, mas em apenas 30 anos atingia 30%. E o torresmo, segundo a lenda, é como uma aplicação direta de gordura nas veias que bombeiam o sangue para o coração.
 
Sertanejos não dispensam um torresmo nas refeições, mas têm uma vida bem mais regrada: andam muito, pegam no pesado, têm outra relação com o tempo. Na correria da vida, mal sobra tempo para uma caminhada, um exercício mais caprichado. Um amigo médico, que chegou à mesa, tenta tranquilizar e diz que o capeta não é tão feio: “Basta não exagerar”, diz com a boca ainda cheia pelo naco de torresmo que comia.
 
Há segredo na fritura de um torresmo. Há quem use bicarbonato para pururucar a pele, há quem prefira o óleo quase fervendo antes de deitar a carne na panela. Uns fazem o corte miudinho, outros preferem pedaços maiores, com mais carne que pele.
 
Em Brasília, tenho minhas preferências: no Bar do Silvio, na 114 Norte, é preciso encomendar, mas a espera vale a pena. O torresmo ali é servido na tradição nordestina, mais suculento, crocante e saboroso. No Bar do Tião, que fica no comércio do posto Colorado, o torresmo vem em tamanhos miúdos, mais seco e firme. Afinal, quem quer viver para sempre se for para dispensar as delícias da vida?

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