Brasília-DF,
21/OUT/2017

Crônica da semana: Treinando a pontaria

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Publicação:11/11/2016 07:20Atualização:10/11/2016 16:48
Este ano não teremos quebra de safra nas ruas da cidade. As mangueiras estão repletas de frutos que resistem bravamente aos ainda esparsos temporais e ventanias; embora tenha gente caprichando na pontaria para levar umas manguinhas para casa e comer com sal, já que elas ainda estão verdes. Mas, vem cá. Manga verde faz mal?

Imagino —  não tenho certeza —  ter ouvido de um médico que grávidas não deveriam comer frutos verdes, citando a manga explicitamente. O difícil é dominar o desejo de uma grávida. Mas também já li que, por não conter tanino, como as uvas, a manga não tem contraindicações, ainda que verde e soltando aquele leite pelo cabo.
 
Sei que os indianos usam a manga verde — desidratada e ralada — para fazer amchur; condimento para o molho caril, já comi ceviche de manga verde em Macapá (não, não adorei) e tomei suco em algum canto de que não me lembro (meio travoso, mais para umbu do que para caju). E ainda acho que a manga verde deve ser comida com sal mesmo. Mas só por quem tem até 12 anos de idade.
 
Tergiversei, mas volto aos manguezais públicos de Brasília. É uma época de olhar com cuidado onde estacionar o carro, mas uma boa diversão é observar as pessoas obcecadas por um fruto que se recusa a cair. As poucas pedras à disposição podem ser substituídas por outras mangas, pedaços de pau, guarda-chuva, qualquer coisa.
 
Dias desses, em pleno Eixão Norte, uma mocinha estava sentada nas costas de um rapaz e agitava os braços na tentativa de acertar a manga teimosa que, tão perto, parecia inatingível. Se ficasse de pé sobre os ombros do rapaz certamente pegaria vários frutos, mas aí já poderia arrumar trabalho no circo.
 
As mangas das ruas da cidade não são bonitas como as que estão à venda nos mercados, já maduras, mais amarelas ou rosadas, com uma casca tão brilhante que parecem ter sido lustradas por um engraxate de mãos habilidosas. Em compensação, me garante Amadeu, estão livres de veneno, enxerto e o que mais vem com as frutas das gôndolas.
 
Amadeu é um entusiasta da vida natural: não come carne, já fez protesto contra os transgênicos e só compra produtos orgânicos ou hidropônicos, mesmo quando eles estão bem murchinhos e parecendo sem vida. Mas não consegue largar o cigarro. O que, no fim das contas, me dá uma boa vantagem sobre ele, mesmo comendo tudo o que é porcaria.
 
Mas a manga verde eu vou dispensar. Prefiro esperar a maturação, mesmo com a certeza de que não vai sobrar fruta madura nos pés da cidade; a pontaria do pessoal vai melhorando bastante com o passar dos dias. Em volta do Museu do Índio o povo já faz a festa, aproveitando que os galhos ali são mais baixos e que já aparecem frutos temporões, quase no ponto (basta enrolar numa folha de papel e esperar um, dois dias).
 
É fim de primavera e, como sempre, promessa de um verão mais farto. Pelo menos nas árvores.

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