Brasília-DF,
28/JUL/2017

Crônica da semana: o desfile das namoradas

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Paulo Pestana Publicação:25/11/2016 06:45Atualização:24/11/2016 17:36
Era uma data para ser marcada, aquela. 50 anos de idade. Bem apessoado, até a véspera se considerava um jovem eterno, solto como um navio sem âncora. Ninguém consegue explicar essas decisões cartesianas e definitivas de mudar de vida, embora ele não pudesse reclamar nadinha do que tinha vivido até ali. Mas queria mudar.

Passava horas ouvindo o samba que Aldir Blanc fez quando completou o primeiro meio centenário, prestando contas “de poucos acertos, de erros sem fim”. Gostava especialmente do final: “Aos cinquenta anos, insisto na juventude”.

Ninguém estranhou quando escolheu a data de aniversário para romper com o passado. Claro que o dia de nascimento tem um significado especial para cada um de nós, mesmo para quem não lê horóscopo; mas para ele era ainda mais extraordinário.

Nascido num sete de setembro, quando criança e ainda morando em Taguatinga, imaginava que aqueles fogos de artifício, a parada militar, o desfile dos estudantes e os aviões voando baixinho eram uma homenagem a ele. E era feriado; ninguém trabalhava, todos felizes porque era aniversário dele.

A mãe nunca desmentiu. Ao contrário, contribuía para mistificar ainda mais o dia, antecipando a distribuição das sacolinhas com doces de Cosme e Damião para a meninada da quadra. A festa invadia a rua e, mais tarde, havia bolo, velas acesas e a música do palhaço Carequinha. Tudo para homenageá-lo.

Só mais tarde é que ele compreendeu que havia mais o que comemorar no sete de setembro. Mas aí já era tarde: a autoestima estava formada, ele tinha certeza de que a vida estava a serviço dele, como se o big bang só tivesse acontecido para que ele pudesse nascer, milhões de anos depois daquela confusão sideral.

E o nosso amigo honrou o destino, tornou-se respeitado e parcimonioso homem da Justiça e, como dissemos antes, disposto a deixar a vida, digamos, despreocupada para virar homem sério também no plano pessoal. E teve uma ideia: para a festa de aniversário chamaria todas as ex-namoradas.

Não todas, claro. Só as que estavam solteiras. E para mostrar que estava falando sério, chamou também a namorada atual. Por muito menos homens foram mortos com óleo fervendo no ouvido, mas não adiantaram os conselhos dos amigos mais sensatos. Estava rijo; queria mais um aniversário inesquecível.

Se não haveria mais a parada militar em sua homenagem, providenciara um desfile de belas garotas. Eram 18! E na medida que foram chegando os amigos puderam ver —  com evidente inveja — que ele fazia sucesso. Todas estavam com vestidos provocantes. E ele, como um sociopata serial, as apresentava à atual namorada.

Num canto, esposas dos amigos cochichavam sem sorrir; vai saber o que se passava na cabeça delas. Uma se manifestou: “Tomara que dê certo com essa. Ele deve ter sido uma pessoa muito infeliz, depressivo até, enquanto estava procurando uma parceira”. Nenhum dos homens riu ou comentou. O marido levou um cutucão: “É mesmo”, apoiou.

P. S. – No final da festa, nosso amigo encontrou duas ex se conhecendo melhor num dos quartos. E ninguém morreu.

“Nascido num sete de setembro, quando criança e ainda morando em Taguatinga, imaginava que aqueles fogos de artifício, a parada militar, o desfile dos estudantes e os aviões voando baixinho eram uma homenagem a ele”

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