Brasília-DF,
23/MAI/2017

Crônica: bodas sem brinde

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Paulo Pestana Publicação:02/12/2016 06:02

Os dois já viviam juntos, não havia problema com a relação e as dificuldades eram semelhantes às de tantos jovens casais no início da vida adulta; mas a moça queria conhecer a emoção de entrar triunfalmente na nave da igreja de véu e grinalda. O rapaz não pensava diferente — ou se pensava não dizia, demonstrando que essa união tinha tudo para dar certo.

 

O casal, aliás, participa ativamente das atividades de uma dessas células radicais da igreja católica e que tem uma interpretação peculiar das escrituras, em que menos é muito menos e os pecados mortais são muito mais que os sete originais. São mais rígidos que o papa Bento 16, que acrescentou seis desvios à lista. Mas isso só ficaria claro para os convidados tarde demais.

 

Foram tomados todos aqueles procedimentos que fazem do sagrado sacramento uma sempre pujante indústria, imune a crises econômicas, ainda que sensível a chiliques pessoais; mas aí é outra história.       E depois dos ofícios religiosos, sabemos, há uma celebração mundana na qual vale até picotar gravata de noivo.

 

Aqui se faz necessário um parênteses: para acabar com a esfarrapada desculpa daqueles que alegam não ter dinheiro em espécie para contribuir com a solenidade do corte do adereço, agora está sendo oferecida uma maquininha de cartão de débito. Foi o que aconteceu.

 

Os convidados estavam excitados. A festa foi marcada em um clube tradicional e cada um alimentava suas expectativas. Fio logo adiantou para a mulher: “Hoje você me segura que eu estou com boca boa de beber. Toma conta!”. E lambia os beiços lascivamente, cometendo, senão um pecado sem remissão, uma grosseria.

 

A intenção de todos estava explícita logo na chegada. Todos de Uber, esperando uma festa de arromba, com fartura, e sem perigo na volta para casa. Foram sentando-se às mesas bem decoradas, dividindo-se em grupos menores e esbanjando a alegria da expectativa e festejando encontros com velhos companheiros que pouco têm se visto.

 

Primeiro houve a perplexidade. Nas bandejas dos garçons só havia água, suco e refrigerante. “O melhor vem depois”, pensou o Ceará, salivando e esfregando as mãos.                  O tempo passou e as garrafas não mudaram. Partiu do Fio a proposta de fazer uma reunião de emergência; estabeleceu-se um gabinete de crise.

 

O garçom confirmou a temida notícia: não havia bebida alcoólica. A perplexidade deu lugar ao desespero. “Parece que o casal é crente”, concluiu o rapaz de gravata borboleta. Fio correu ao restaurante do clube; estava fechado. Havia outra festa próxima; era um aniversário de 15 anos, as garrafas de uísque eram poucas, só para os pais. O clube é distante, o comércio próximo estava fechado e a única esperança era uma instância superior. Foram em comissão falar com o pai do noivo. Em vão.

 

Ele estava tão perplexo e sedento quanto os demais. Apopléxico, sem suportar a pressão dos amigos, ele, que é diácono, saiu pelo salão gritando: “Até nas bodas de Canaã teve vinho! 600 litros! E foi o primeiro milagre de Jesus, seus hereges!

 

Ninguém brindou aos noivos.

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