Brasília-DF,
24/FEV/2017

Crônica da semana: No tempo do bolero

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Paulo Pestana Publicação:23/12/2016 06:45
Há algumas semanas Djavan lançou Não é um bolero. É uma canção de amor, de melodia insinuante e o balanço característico do compositor alagoano. A música é boa, mas não toca em lugar nenhum. As emissoras de rádio parecem ter desistido de vez da produção mais recente da música brasileira, ainda que tenha a chancela de um nome reconhecido.
 
A canção não é mesmo um bolero. Talvez porque não seja mais tempo de bolero; o gênero já reinou no Brasil, mas parece à beira da morte. Filho de Cuba, o bolero se espalhou por toda a América espanhola rapidamente. E fez o mundo dançar. Até os Beatles, Frank Sinatra e João Gilberto gravaram Besame mucho.
 
No Brasil, teve uma presença avassaladora, até que a bossa- nova surgiu para fazer o contraponto estético à música de Anísio Silva, Lucho Gatica, Carlos Alberto e outros que foram subitamente declarados representantes do mau gosto e banidos. A ironia é que certamente alguns dos bossanovistas só existem ou existiram porque o bolero fez o que faz ainda hoje: uniu casais, provocou cochichos, comichões e algo mais.
 
Algum prestígio foi reconquistado quando compositores como João Bosco, Gonzaguinha, Chico Buarque e Caetano Veloso resgataram o ritmo compassado e delicado, a partir dos anos 1970. Eram dois passos pra lá, dois pra cá, música de uma época em que se bebia uísque misturado com guaraná, e os casais, ao contrário de hoje, costumavam conversar e dançar para atiçar o desejo e só depois tiravam as roupas. Faz tempo.
 
Mas aos 133 anos de idade — se contarmos como data inicial o registro de Tristezas, com José Sanchez, em 1883 — o bolero parece estar sucumbindo. Pelo menos no Brasil. E quem tem sentido isso na pele são os artistas que ainda acreditam no poder da música como sedução; gente que apurou as próprias qualidades para embalar o desejo alheio.
 
É o caso de Beto Paraguai — batizado Gualberto Nunes, criado na Argentina, mas radicado em Brasília há mais de 20 anos. Ele é um desses artistas que se mantêm quase fiéis ao gênero. O quase é por conta das temporadas em que formou a dupla sertaneja Beto e Braga, emplacando Tchau amor e Cordão de ouro, entre outros sucessos.
 
Ganhou um bom dinheiro, mas o coração dele bate no compasso do bolero desde quando se apresentava com um gigante do gênero, o mineiro Altemar Dutra. Beto correu por vários países da América Latina, tocou para auditórios lotados, mas hoje só encontra espaço para cantar em festas particulares, aqui na cidade. Nem pensa em gravar um novo disco; para quê?, pergunta conformado.
 
Diante do microfone, sentado num banquinho e com o impecável violão nas mãos, tudo muda. O rosto se acende e a voz sai cristalina, com fôlego juvenil; a desafiadora guarânia Galopeira, do paraguaio Maurício Ocampo, é vencida com brilho incomum. É a abertura para uma sequência irresistível de boleros e tangos que faz com que casais se levantem e dancem.
Naqueles momentos é como se o bolero fosse imortal.

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