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23/MAI/2017

Crônica: Cartas para o futuro

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Paulo Pestana Publicação:30/12/2016 06:45Atualização:29/12/2016 16:03
O que será dos historiadores do futuro? Das pessoas que vão contar as histórias que estão acontecendo agora? Essas duas perguntas não me saem da cabeça desde que terminei de ler o livro A última viagem do Lusitania, do norte-americano Erik Larson —  sim, sei que estou atrasado com as minhas leituras; o livro foi lançado no longínquo ano passado.

Já tinha lido O demônio na cidade branca e No jardim das feras, ambos do mesmo autor, e me impressionado com o volume documental usado para a construção do texto. E grande parte das informações e dos diálogos foi extraído de cartas escritas por personagens que participaram das ações descritas.
 
Larson é um escritor de não ficção. Embora pareçam romanescos, em seus livros tudo é fato, num exaustivo trabalho de pesquisa executado de forma tão detalhada que parece ficcional, buscando a alma dos personagens, recuperando diálogos e invadindo o estado de espírito dos protagonistas.
 
Isso será impossível no futuro. Os fatos mais objetivos estarão cobertos; a imprensa é mais ativa, presente e a cobertura é mais ampla do que nunca. Há muita informação. Mas onde estarão as nuances que explicam as motivações individuais? Como ninguém mais escreve cartas, as confissões morrem na sacristia ou no consultório do analista.
 
As cartas constroem a narrativa no destino do Lusitania, luxuoso transatlântico, menos famoso que o Titanic, mas mais emblemático por marcar uma tragédia da Primeira Guerra Mundial. O navio afundou torpedeado por submarinos alemães, que não respeitaram a tradição de preservar alvos civis.
 
A partir de algumas notícias e muitas cartas, Larson montou um magnífico relato, como havia feito em No jardim das feras, em que narrou o ambiente tenso de Berlim às vésperas de Hitler assumir o poder, usando como base a família do embaixador dos Estados Unidos e as muitas cartas trocadas entre os personagens.
 
Em O demônio na cidade branca, Larson reconstitui a crueldade do médico Henry H. Holmes, que chegou a construir um castelo de 100 quartos para perpetrar maldades; suas vítimas, todas mulheres, podem chegar a 200. De novo, as cartas forneceram o material mais rico do livro, livrando-o de uma descrição fria da Chicago de 1893.
 
Cartas não há mais. O negócio agora é na base do zap e sua linguagem cifrada. O historiador do futuro terá acesso à nuvem de informação para resgatar e-mails? Mesmo que tenha, e-mails não são cartas —  são filhos do telegrama; diretos, não trazem detalhes, não têm a confissão de atos e nem a intimidade que as tais mal traçadas carregam.
 
O volume de informações que circula por minuto no mundo não para de crescer; já há mais bits de informação do que estrelas conhecidas —  e elas são um septilhão! Daí, fatos relevantes se misturam a bobagens, perdeu-se o critério de edição e quanto mais se sabe, menos informação se tem.
 
Mas para quê o futuro quer escritores que escarafuncham cartas e escrevem romances de 400 páginas se, pelo andar do carroção, as pessoas não vão ler mais do que um tuíte?

Tags: futuro cronica

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