Brasília-DF,
22/OUT/2017

Crônica da semana: para o inferno

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Paulo Pestana Publicação:06/01/2017 06:30Atualização:05/01/2017 16:15
Acabou. Mesmo que pareça que 2016 ainda esteja nos espreitando atrás da porta, o ano velho se foi — e parece que não volta. Deixou má impressão como, aliás, todo ano velho; a gente só lamenta a passagem do tempo, que nos leva um pouquinho mais para perto do outro lado, mas a sensação imediata é de alívio.

Olhando para trás, foi um furacão como o daquele filme, Twister, que levanta até vaca. Houve vários momentos marcantes, mas para mim 2016 vai ficar guardado como o ano em que Roberto Carlos voltou a cantar sua canção mais emblemática, Quero que vá tudo pro inferno. Não é pouco.
 
Nem a eleição do bufão, a deposição da gerente ou a morte do barbudo original; nada disso supera a recuperação de uma canção que nunca encontrou intérprete a altura depois que Roberto Carlos parou de cantá-la. E mesmo depois de tantas décadas de ausência, a música está viva, pedindo para ser cantada, como acontece com as grandes canções.  
 
Os mais jovens hão de discordar — e provavelmente os mais velhos também —, mas essa música está para o Brasil como I wanna hold your hand, dos Beatles, está para os países anglófonos. Ambas romperam fronteiras, mostraram que música feita por jovens podia ser levada a sério.
 
São canções contemporâneas que, da mesma maneira, separaram homens de meninos e mostraram quem tinha mais cascos para vender. Lançada em 1964, I wanna hold your hand fez dos Beatles fenômenos globais; de 1965, Quero que vá tudo pro inferno, fez de Roberto Carlos nosso maior ídolo popular.
 
Até o dantesco desabafo de Roberto Carlos, a Jovem Guarda era tida como um movimento de cabeludos desmiolados que se dedicavam a verter sucessos do rock estrangeiro para o português em produções mambembes. E era mesmo. Mas uma canção, de repente, mudou tudo.

Até os mais velhos e recalcitrantes repetiam o refrão com aquela sensação que só conheciam quando cantavam uma marchinha de carnaval mais venenosa. Estrutura simples — três acordes a sustentam — e o ritmo contagiante liberavam os capetinhas que perturbavam tempos castos, sem que fosse preciso esperar por aqueles três dias.
 
Quero que vá tudo pro inferno foi encostada pelo autor, ao que se sabe, por causa de um TOC, transtorno que causa as manias mais esquisitas, quase indomável. Há uma vitória pessoal do cantor, que superou suas limitações, mandando também o tormento psíquico para o inferno. No final ele quase pediu desculpas, mas valeu.
 
Era o que faltava para um cantor entronado e coroado no programa A Hora da Buzina, do Chacrinha, em 1966. O título original era Rei da Juventude e, se o objetivo do Velho Guerreiro era fazer galhofa, gorou: foi tão incontestável que logo ele se tornou rei de todos — menos do Marco Tuim, que em seu botequim da Quituart continua praguejando contra a monarquia, balbuciando argumentos sem sentido, mas ainda assim servindo chope com categoria.
 
Agora que o inferno está liberado, já dá para mandar um bocado de gente para lá. Com aval do Rei.

Até o dantesco desabafo de Roberto Carlos, a Jovem Guarda era tida como um movimento de cabeludos desmiolados

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