Brasília-DF,
22/AGO/2017

Crônica da semana: A invasão

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Paulo Pestana Publicação:03/02/2017 06:15
O bom botequim tem que manter a fama de mau. Esses bares cheios de nove horas, comidinhas bonitinhas 
e saudáveis, cadeiras elegantes e garçons solícitos até quebram o galho, mas pertencem a outra categoria. São butiques. Só falta aquele cheirinho de baunilha.

Dia desses fui levado coercitivamente —  me senti um acusado sob vara e já condenado —  a um desses estabelecimentos pagãos, que professam uma fé estranha à minha. Estava tudo no lugar, mas muita cerimônia, rito elegante —  e, portanto, limitador —  que nos constrange, tira o conforto.
 
O uísque era bom, a conversa idem, os petiscos não fizeram feio. Fiquei calado até alguém dizer: precisamos voltar aqui! —  e a frase foi dita com o júbilo da exclamação. Mudei de assunto na mesma hora, afinal, na ocasião, o goleiro paraguaio do Botafogo merecia ser reverenciado, talvez, com uma estátua ao lado do Manequinho.
 
Dia seguinte, estava eu de volta à velha cadeira de plástico do bar de fé, observando o rapaz lavar os copos com a displicência de quem se vê obrigado a deixar uma lembrança do bebedor anterior para o próximo. Não que sejamos conservadores ou fiéis xiitas; muda-se de boteco, mas não se muda de ambiente.
 
Durante alguns anos, frequentamos um bar na Asa Norte com fidelidade canina. Era um estabelecimento humilde, banheiro unissex, bancos desconfortáveis, comida excelente, bebida honesta. À noite, frequência moderada; aos sábados os amigos se chegavam, emendando mesas.
 
Os almoços de sábado se estenderam, varando tardes, aproveitando-se que as senhoras estavam ocupadas com seus afazeres —  é dia de salão, se você não sabe. Não sei o que se passa num salão de beleza, tenho medo de perguntar.
Certamente é diferente do que fazemos no bar, já que invariavelmente saímos com os cabelos ainda mais amarfanhados do que entramos. Mas muito alegres.
 
E alegria de marido chama a atenção de mulher. Como todas elas acreditam que a chamada cara-metade não pode ser feliz sem elas, vão à caça. Não apenas para descobrir o motivo da satisfação, mas, se possível, para destruí-la, acabar com essa concorrência —  imagine: ele feliz; sem mim? E assim nosso refúgio dos sábados foi destruído.
 
Começou prosaicamente. Com uma amiga, uma das esposas sentou-se em mesa separada —  “Finjam que não estamos aqui”, disse. Pois, sim. O marido, desafiador, continuou em nossa companhia, com cara de quem comeu e não gostou.
 
Mas não havia ameaça. Enquanto o banheiro fosse um só, imaginávamos, estaríamos salvos; mulher não gosta de dividir sanitário nem com marido, imagine com outros homens ruins de mira.
 
O dono do estabelecimento tinha outros planos e fez outro banheiro, só para elas; elegante, aliás, com toucador e espelho! Qual pé-sujo do mundo tem espelho? E toucador? A invasão foi incontrolável: como os aliados na Normandia, chegaram até de paraquedas. E o sagrado boteco do sábado virou reunião de famílias.
 
O italiano foi o primeiro a reclamar, mas perdeu o moral quando a mulher apareceu —  trazendo o cunhado! E tudo degringolou quando outro comensal apareceu de braços dados com a própria sogra. Era a saideira.

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