Brasília-DF,
24/OUT/2017

Crônica da semana: O ex-valentão

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Paulo Pestana Publicação:10/02/2017 06:30
Nosso personagem é um bom sujeito. Ele queria ser um homem mau, igual aquele da música de Louis Armstrong na versão que Roberto Carlos cantou, ainda no tempo do calhambeque; mas com um final melhorzinho, já que não quer morrer. Ele até capricha na carranca, mas nunca conseguiu ir além da caricatura.

Não tem o phisique du role de um valentão. Ao contrário, não é muito alto nem parrudo, não anda gingando nem esfregando o chinelo pelo chão. Pior: não tem topete —  a natureza cuidou de deixá-lo calvo. Também não tem cara de mau, mas fala alto; a voz de baixo-barítono não faria feio no papel de Wotan, no ciclo do anel da ópera A Walkíria, de Wagner.
 
Túlio, este é o nome dele, foi um valentão temido nos bares de Brasília nos já longínquos anos 1980; andava sempre com um comparsa, do mesmo tamanho e esquentado como ele. Faziam alvoroço. O único momento de candura é quando estava dançando, metido numa malha coladinha no corpo, na companhia de Fernando Azevedo.
 
Bastava descalçar as sapatilhas, no entanto, para ser absorvido por uma necessidade de agredir; como um punk —  e naquela época havia muitos —  sem penteado moicano. E a dupla saia pela cidade, procurando confusão, talvez numa tentativa de drenar a testosterona. Terminavam as noites, invariavelmente, no baixo meretrício do Conic.
 
A lembrança mais vívida da época foi uma blenorragia na garganta, que o transformou numa semicelebridade entre os médicos da cidade, que só haviam visto coisa parecida nos livros da faculdade.
 
Mas ninguém pode reclamar do amigo Túlio, sempre pronto, disponível e bem-humorado com os companheiros. É daqueles camaradas fiéis que farejam quando há algum problema e que se adiantam para ajudar. Os calendários foram mudando, nosso amigo amansou. Os dias de valentia tinham ficado para trás. “O tempo não só cura, mas reconcilia”, escreveu Vitor Hugo, a quem ele nunca precisou ler para se inspirar.
 
Casou, teve filho, parou de arrumar confusão. Deixou o balé e foi cuidar da vida até que, dias atrás, houve a recaída, num boteco do Lago Norte. Por um motivo qualquer, daqueles que ninguém lembra mais, Túlio se enfureceu. Até aquele momento estava tudo bem, com cerveja gelada, espetinhos de carne e linguiça, conversa boa, mas bastou uma fagulha para que os ânimos explodissem.
 
O sujeito que ninguém conhecia brincou e o nosso amigo aceitou a provocação. Tomado pela adormecida fúria adolescente, respondeu aos gritos e engoliu a cerveja que jazia no copo; o outro retrucou. O sangue subiu e Túlio levantou-se vigorosamente da cadeira para dar início ao combate corporal, já que a turma do deixa-disso não apareceu ou estava muito embriagada.
 
Do jeito que subiu desceu. A idade cobrou sua conta e os ligamentos do joelho se romperam, ele estatelou-se no chão e foi erguido com dificuldade —  ele andou cultivando uma barriga nos tempos de armistício. Túlio foi operado e passa bem. Agora faz planos de virar columbófilo —  quer criar pombos brancos para mostrar ao mundo que está em paz.

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