Brasília-DF,
26/MAR/2017

Crônica da semana: Quem aposta?

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Paulo Pestana Publicação:17/02/2017 06:10
Se a Inglaterra é famosa por suas casas de apostas —  nas quais pode-se casar dinheiro em qualquer coisa, desde o sexo do bebê da princesa até quem vai ganhar o concurso de torta de rim —  o Brasil dá um jeitinho de não ficar atrás. Todos sabem que só o governo pode bancar apostas no país, mas o jogo do bicho está aí mesmo na esquina —  no caso de Brasília, na entrequadra — para mostrar que é assim, mas não é muito.

Não há boteco que não ponha banca. Claro que nada é oficial; e só não vale o que está escrito porque nada é escrito: é no fio do bigode, na confiança, o que só é possível porque estamos, talvez, no último reduto da palavra de honra neste país de tão rara hombridade e tão farto descaramento.
 
Há jogos que unem todos por um objetivo comum: o bolão da Sena acumulada é um clássico. Mas as grandes apostas do boteco nascem mesmo no bate-boca do balcão.
 
Enquanto o jornal não começa, entre um gole e outro os temas são variados e há sempre uma rusga. Pode ser um jogo de futebol (até aquele americano, meio vale tudo), a situação matrimonial de um conhecido, uma moça mais graciosa, qualquer coisa. O fim da conversa é sempre o mesmo: “Quer apostar?”.
 
Normalmente a peleja é restrita a duas pessoas e envolve uma questão simples, de solução rápida e cuja resposta será transformada em cervejas a serem bebidas pelos dois e quem mais estiver perto. O Google acabou com os chutes e as respostas para o dia seguinte; transformou as velhas e emocionantes rixas de outrora em raspadinhas: se vê na hora quem ganhou. É mais chato, mas pelo menos a cerveja vem antes.
 
Aposta de bar não vicia e nem causa maiores celeumas, desde que não envolva advogado. Esses não gostam de perder nem amistoso. Capricham na sustentação oral e mesmo derrotados põem a culpa em alguém. Como diz o Faixa, advogado, currículo é importante até no bar.
 
Por causa de altercações que por vezes levam os encanecidos frequentadores do bar a se comportar como púberes arruaceiros, proibiu-se apostas políticas. A decisão foi do proprietário do estabelecimento que ali exerce o papel da Suprema Corte, cansado de briga por causa de opiniões divergentes —  e a ameaça era o pior dos castigos: parar de servir.
 
A conversa sobre política acontece, óbvio, mas tem que ser num tom aceitável pelo dono, que monitora o ambiente. Quando a cerveja vem menos gelada do que o costume ou o copo de uísque traz duas, ao invés das três regulamentares pedras de gelo, já é considerado um cartão amarelo.
 
Mas dono de bar está ai mesmo para ser contrariado e foi o Faixa quem tomou a frente, propondo um bolão sobre o Trump. O veredito veio do balcão: “Isso pode, não dá briga”. Foi a vez de o Faixa falar: “Caso duas garrafas de red que o Trump vai sofrer impeachment antes do Temer”. Recebeu a conta na mesma hora.

Tags: Crônica

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