Brasília-DF,
18/AGO/2017

Crônica da semana: O copo, como convém

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Paulo Pestana Publicação:04/08/2017 06:03
papestana@uol.com.br

Tem coisa em que não se mexe. Embalagem de Maizena, por exemplo. São décadas de exposição sobre o fundo amarelo que salta aos olhos nas prateleiras do mercado. No caso do Leite Moça, buliram na lata — agora com curvas — mas mantiveram o que importa: a moça, também curvilínea. É como a Gina, do palito, que não envelhece.

com o copo do bar não é diferente. Tentam inovar, modernizar, surpreender, mas ninguém supera o brasileiríssimo copo americano —  ou lagoinha, para quem já frequentou bares nas alterosas. Ele já está entre nós há 70 anos e com fôlego para mais tantos.
 
Agora deram de chamá-lo de copo multiuso, mesmo depois de eleito, numa dessas importantíssimas pesquisas de mercado, como o recipiente ideal para tomar uma cervejinha. Deve ser porque também é bom para abrigar uma média, um pingado ou um café boca-de-pito. Também é famoso pela medida de pinga que dispensa o dosímetro, para quem precisa de uma talagada mais caprichada —  “na risca”, pedem os sedentos apontando para a linha horizontal no alto. Mas continua sendo copo.
 
Pois esse objeto que é tão babujado pelos bebedores brasileiros chegou a ser exposto no Museu de Arte Moderna de Nova York como referência do design brasileiro. As versões maiores e menores não parecem ter colado. Nada superou o tradicional, de 190ml, que não deixa a cerveja esquentar e funciona para gulosos ou comedidos e que já superou a marca de um bilhão de unidades produzidas.
 
A unanimidade dos cervejeiros, porém, não alcança o chope. Aí a conversa é mais comprida. Claude Capdeville, reconhecido especialista na arte de tirar o líquido do barril, acredita que só é possível apreciar toda a intensidade da bebida com uma tulipa leve, de vidro finíssimo e que se afunila na base, abrindo espaço para o creme.
Outro craque do metiê, Marco Túlio, do Butiquim do Tuim, é menos radical e também usa a caldereta, com vidro mais grosso, fundo pesado e ligeiramente menor que a boca. Segundo ele, conserva melhor o creme e, desde que servido na temperatura própria —  entre 3 e 4 graus —  protege melhor o líquido.
 
A verdade é que cada um faz a sua escolha. Até bebedores de uísque têm preferências, embora por motivos mais pragmáticos: quem comete o pecado de misturar o líquido escocês com qualquer outra substância ou exagera no gelo, pede copo longo. Os demais se satisfazem com um copo largo e curto —  como deve ser, se me permitem.
 
Mas dia desses chegou no boteco um forasteiro; nunca tinha estado ali, pediu uma cerveja, mas não gostou do copo americano apresentado. Pediu para trocar e a moça gentilmente mostrou os tipos de copo à disposição.
 
Ele voltou a falar: “Eu queria uma coisinha mais simples. Você poderia ver se na cozinha não tem um daqueles copos de requeijão?”. Diante da surpresa, ele se sentiu obrigado a explicar: “Eu tenho os dedos meio bobos. Copo de requeijão tem uma beirinha que não deixa escorregar da mão.” É como dizem: o freguês tem sempre razão.
 

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