Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica da semana: Cinema interativo

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Paulo Pestana Publicação:06/10/2017 06:00
Uma das minhas perversões confessáveis é ver filmes que a crítica malha sem dó. Foi o que me levou ao cinema para ser um dos mais de 1,1 milhão de espectadores de Polícia Federal – A lei é para todos, filme que, se for seguir os acontecimentos, vai ter mais continuações que Godzila, personagem de 35 películas até agora.

Não se trata de birra com críticos, ao contrário; é que, como entendo lhufas de cinema, tento usar a técnica de engenharia reversa para saber o que deu errado e por que determinado filme é recebido com tintas tão fortes. No caso da película dirigida por Marcelo Antunez, não entendi por que tanto fel. Se não é um filme bom, também não é um filme ruim; não fica nada a dever a esses thrilers importados que a TV Globo gosta de exibir nas noites de segunda.
 
Mas, independentemente da qualidade do filme, o que está levando as pessoas para o cinema é a chance desabafar em público, de liberar alguns demônios indignados. É um espetáculo que há tempos é visto nos botecos que deixam a tevê ligada na hora do telejornal —  impropérios, frases duras e gritos acompanham a narração dos apresentadores e repórteres durante as matérias. No escurinho, não deixam por menos.
 
O jornalista Antônio Marcello, já falecido, deixou de ir ao cinema por muitos anos. Não suportava mais o cheiro de pipoca e, principalmente, o barulho de vozes durante a sessão. Irritava-se especialmente com a conversinha dos enamorados durante a exibição — “amor, o que vai acontecer agora?”, arremedava ele. Por mais de uma vez, saiu apoplético do cinema, sem ter visto o fim do filme. “Só um ignorante faz o amor de vilão”, brincavam os amigos.
 
Em Polícia Federal, o filme, o diálogo com a plateia parece ser parte do espetáculo. Há até espaços entre as cenas que encaixam perfeitamente a participação dos mais exaltados, que dão a impressão de estarem vendo o ato naquele instante, se esquecendo que o filme, embora com pretensões realistas, é obra apenas inspirada naqueles eventos. E os adjetivos são fartos: canalha, corrupto, ladrão, safado; ouvi até um pulha! —  todos dirigidos aos vilões da fita.
 
Se fosse um filme melhor, talvez não permitisse tanta participação dos espectadores. Mas o fato é que funciona, se não como cinema, pelo menos como terapia de grupo. E as pessoas parecem sair aliviadas, enquanto comentam cenas.
 
Está criado o cinema interativo —  se Tom Baxter, herói de Woody Allen em A rosa púrpura do Cairo, sai da tela para a vida, desta vez acontece o inverso. O público é quem invade a tela. As pessoas aplaudem, assoviam, vibram como nunca fizeram com Dirty Harry (Clint Eastwood) ou Paul Kersey (Charles Bronson), que enfrentaram outros facínoras.
 
No filme de Antunez, a dicotomia é clara: o bem enfrenta o mal. Há boas interpretações, mas são as cenas de ação, entremeadas por cenas de absurdos —  e nem havia ainda o choro e a mina de dinheiro vivo de Geddel — , que conquistam um público que só quer xingar alguém.

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