Brasília-DF,
25/MAI/2018

Crônica da semana: O choro do marca-passo

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Paulo Pestana Publicação:08/12/2017 06:00
Houve tempo em que eram aplicados choques elétricos para tentar curar malucos. Isso acabou, mas o fato é que muitas vezes eles salvam vidas. Foi o que aconteceu recentemente com Carlinhos 7 Cordas, quando passeava com a família pela Feirinha da Torre de TV, sonhando com pastel e caldo de cana.

durante um fuzuê, que acabou com a prisão de um sujeito armado e que foi preso e imobilizado por um policial de folga, Carlinhos teve uma parada cardíaca, desmaiou e foi devolvido à vida pelo marca-passo que carrega no peito desde 2013.

Carlinhos, todos deveriam saber, é um monumento vivo à música brasileira. Olhar para ele é enxergar uma parte importante da nossa cultura. Nenhum daqueles personagens transformados em bustos e que estão na praça do Buriti merece a estátua mais que ele.

De vez em quando tem umas surpresas. Dia desses, convidado para a festa de aniversário de um médico, músico amador, o violonista foi o homenageado, com um discurso do próprio aniversariante, que não escondeu o orgulho de tê-lo como convidado.

Já recuperado do susto e do choque — diz Carlinhos que não doeu nada, só caiu no sono e acordou com vontade de levantar da cadeira de rodas em que está por causa de uma neuropatia — notou que é o último remanescente do grande quinteto de Waldir Azevedo.

Waldir se foi, assim como Pernambuco do Pandeiro, Hamilton Costa e Eli do Cavaco. Dia desses, em conversa com amigos, disse que também estava pronto para ir. E completou: “Acho que só fico com vocês mais uns 30, 40 anos”. No que um amigo retrucou: “Mas tão prematuro, porque deixar a gente tão cedo?”

Carlinhos se contorceu na cadeira, desmaiou e ficou com a boca roxa, mas nem precisou ir ao hospital. E para garantir que vai continuar por aqui, daqui a uns 10 dias vai trocar o marca-passo que salvou sua vida por um novinho. “O negócio é tão bom que acho que vou pôr dois de uma vez”, brinca.

Mas o marca-passo salvador não será esquecido; ao contrário, vai ser homenageado com um choro. Lembra o amigo Waldir Azevedo, que fez um choro — Minhas Mãos, Meu Cavaquinho — depois de ter um dedo decepado, agradecido pela recuperação.
Depois de ter ganho o choque elétrico de presente, Carlinhos só espera pelo violão que encomendou a Bruno Balbino, luthier com oficina no Lago Oeste, com corpo de imbuia e tampo de pinho alemão. “Eu já tenho um violão de imbuia, mas o tampo é de cedro. O som não é tão bom”, explica. E emenda: “Músico tem cada mania, né?”.

Por enquanto o violão é uma miragem. Encomendado em abril, o instrumento deveria ter sido entregue em dois meses, mas o tempo traiçoeiro — seca inclemente e agora chuvas abundantes — impedem o arremate.

Carlinhos só está sobressaltado por causa da lenda que conta que Balbino demorou três anos para terminar um violão para ao professor Everaldo Pinheiro e não quer falar muito no assunto. A mulher, Alcione, é quem toma conta.

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