Brasília-DF,
16/OUT/2018

Crônica da semana: O estranho íntimo

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Paulo Pestana Publicação:22/12/2017 06:01
Naquela noitinha ninguém falava alto. Não havia motivo para comemoração, mas a mesa estava cheia, assim como os copos. Era um ambiente triste; a maioria ali tinha estado no velório de um companheiro que deixou uma das cadeiras vazias —  havia uma constatação evidente, mas que todos se recusavam a falar: estamos frequentando demais o cemitério.

O finado era querido por todos, presença assídua nos encontros semanais, vibrante, bom humor inoxidável —  à prova de chuva e de sol. Era quem organizava os bolões mensais da turma, sempre na última semana, fazia as cobranças, escolhia e conferia os números. Não dá para dizer que era sortudo: nunca fizemos nem uma quadra.

Ironicamente, era quem marcava o tempo para falar de doenças. Quando alguém puxava o assunto, avisava que começava a contar meia hora; quem não falasse dos males do corpo naquele espaço de tempo teria de esperar até a outra semana. E completava a cronometragem sempre da mesma forma: “Chega, que ninguém morreu!”

Doutor Bosco, que é de outra roda, de outro boteco, costuma dizer que, se, depois dos 50 anos, alguém acordar sem alguma dor, é porque está morto. Mas ninguém ali esperava que aquela dorzinha incômoda nos quadris que fazia com que ele se levantasse para buscar as garrafas no balcão o tempo todo fosse evoluir para algo tão grave.

Não vou usar minha meia hora para falar de doença. Mas há um tipo diferente de pesar quando falta alguém à mesa; companheiro de bar não necessariamente é amigo, não são pessoas que se frequentam, que envolvem familiares. São distintos, mas trocam confidências (algumas até que nem deviam ser trocadas). Há uma ligação que pode ser confundida com cumplicidade; afinal, bar é refúgio.

Ele era um desses íntimos estranhos, que não negava uma conversa sobre qualquer assunto, mesmo os mais espinhosos, como naquela vez que alguém bebeu demais e confessou que não se interessava mais por mulheres — não chegou a dizer que passou para o outro lado do campo, não evoluiu no assunto, que, afinal, não era da conta de ninguém, mas foi o agora falecido que evitou falatório depois que o rapaz saiu.

Vai fazer falta, mas certamente não será sempre lembrado. Não teve a fortuna do “seu” Coqueiro, bandolinista que ganhou uma foto grande na parede do bar n’O Grao —  o que há algum tempo evoluiu para um grande mural com o desenho do rosto dos músicos mais assíduos no estabelecimento.

Havia a curiosidade de saber o que havia vitimado o homem que, se não parecia uma fortaleza, enfrentou mais de sete décadas de vida com galhardia e altivez. Era boêmio conhecido, amante da música e das mulheres, jogador de sinuca e bom de gole. Dizia que não podia reclamar da vida, contava histórias que pareciam ter saído de um poema de Bocage.

O único medianamente doutor da mesa é um dentista; o resto só podia especular. Foi quando o decano decretou para terminar a discussão: “Vocês não enxergam o óbvio: ele morreu de excesso de vida”.

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