Brasília-DF,
23/FEV/2018

Crônica da semana: Cidade amarela

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Paulo Pestana Publicação:19/01/2018 06:00
Os ipês já terminaram a festa anual de cores, mas eis que a cidade está novamente amarelada, formando um belo contraste com o verde das folhas viçosas, na temporada mais úmida do ano. É a floração dos cambuís, que compensa o céu pintado de chumbo.

A árvore não tem o mesmo prestígio dos ipês, plantas mais exibidas, que dispensam todas as folhas para explodir em flores e depois ficam completamente nuas, com troncos e galhos à mostra. O cambuí conserva as folhas e mostra suas flores na copa; ou seja, não se despe para mostrar a nova cor. Só fica nu durante a seca.

Em Brasília, estão espalhados por todas as regiões —  são quase mil cambuís, segundo a última conta —, mas há uma bela concentração nos canteiros do Eixo Monumental, principalmente entre o Centro de Convenções e o Parque da Cidade.

A festa será completa a partir de março, quando a passarinhada volta a se refestelar com a frutinha, que não sei como se chama —  seria mais fácil se a árvore fosse chamada de cambuizeiro. E também nunca consegui comer uma delas, que ficam muito acima das minhas possibilidades de escalador da pior idade. Mas há quem garanta que são deliciosas.

Devem ser mesmo, afinal, o cambuí é parente próximo das goiabeiras, pitangueiras e jabuticabeiras. O nome vem dos índios e pode significar, dependendo do tradutor, folha que cai ou galho fino.

Mas a madeira é dura e resistente como a da goiabeira, boa para fazer estilingue, atiradeira ou bodoque, qualquer nome vale, dependendo de onde vem o menino e desde que não seja para mirar em passarinho. Também é usada para fazer cabo de martelo.

O cambuí vem da Mata Atlântica, mas se deu muito bem no cerrado urbano de Brasília, trazida por Ozanam Coelho, o homem que transformou a árida paisagem brasiliense num parque, mesmo desafiando as escolhas da natureza. Podia ter restringido os jardins da cidade a espécies do cerrado, mas sonhou muito mais alto.

Morto há quase dois anos, depois de plantar mais de três milhões e meio de árvores na cidade, só recebeu como homenagem até agora um luto de três dias.

Não ligaria para o esquecimento, mas reclamaria que os jardins da cidade andam meio descuidados, com mato para todo lado, sujeira e nenhuma conservação. Ainda bem que a natureza, representada pela beleza da floração dos cambuís, aparece para compensar o descaso dos homens.

Mudando de assunto... Duas moças mandaram mensagem reclamando que sou misógino por não gostar da Anitta. Tenho que respeitar porque, entre nós três, elas são maioria. E, por isso, fui ver o clipe da música Vai malandra, que todo mundo fala, visto por 120 milhões de pessoas, enquanto o clipe de Tua cantiga, de Chico Buarque, foi visto por menos de duas mil pessoas.

Fiquei pensando: se um artista homem e heterossexual fizesse um filminho com aquele tanto de bumbum rebolando —  ainda mais cheios de celulite —  estava no sal. E continuei sem gostar da Anitta. Mas sem misoginia.

“A festa será completa a partir de março, quando a passarinhada volta a se refestelar com a frutinha, que não sei como se chama — seria mais fácil se a árvore fosse chamada de cambuizeiro”

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