Brasília-DF,
17/JUL/2018

Crônica: Meu bem, meu mal

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Paulo Pestana Publicação:16/03/2018 06:00
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Fumar virou quase um ato subversivo, mas o nosso amigo não dá muita bola e continua acendendo um cigarro no outro, como fazia Humphrey Bogart em O Falcão maltês. Nem os recentes e seguidos sustos que o levaram ao hospital mudaram seus hábitos.

Os médicos estão roucos de falar que ele precisa abandonar os maços para viver mais e melhor, o pigarro renitente está cada vez mais fragoroso e profundo e o bigode virou uma mancha amarela. Ainda assim, não há modo de convencê-lo a largar o vício.
 
Dá de ombros a cada conselho, a cada vez que alguém fala sobre as vantagens de parar de fumar —  “a comida fica uma delícia”, disseram outro dia, enquanto ele expelia a fumaça, aproveitando cada instante daquela baforada. “Já tenho minha delícia”, desdenha.
 
Não é daqueles que escolhe o maço pela imagem que ilustra a propaganda contra o fumo. Não gosta muito daquela que fala dos riscos para a potência sexual, mas para as outras nem liga. E a cada vez que tira um cilindro do maço o acaricia, agradecido.
 
Enfrenta com galhardia o batalhão antitabagista. Não tem ninguém mais chato que ex-fumante que tenta catequizar os outros e explicar o mal que estão fazendo a eles mesmos; mas ele responde na mesma moeda: “e essa pinga aí, faz bem?”.
 
O combinado no bar é que problemas de saúde não podem tomar mais do que meia hora da discussão; até porque, se deixar, dominam toda a conversa. Mas o futebol não anda empolgando, mulheres só atiçam reminiscências e ninguém aguenta falar de política.
 
Naquela noitinha não teve jeito, a conversa girava em torno da saúde quando nosso amigo tabagista falou. “Diz a propaganda que o cigarro contém mais de 4.700 substâncias tóxicas, causa dependência e pode causar doenças. Mas não diz que pode fazer bem para a saúde”.
 
Todo mundo tinha ouvido falar que uma dose de uísque faz bem para as coronárias, que uma taça de vinho pode ajudar a prevenir doenças e até que ovo frito não era mais veneno. Mas aquilo era novo e ele puxou uma informação no telefone. “Está aqui: a Universidade de Ohio garante que fumar ajuda na prevenção ao mal de Alzheimer”, disse.
 
Antes mesmo de digerir a informação, o Faixa lançou dúvida — “quando eu fumava, vivia perdendo o isqueiro, mas o fato deve estar correto: o fumo mata o sujeito antes do Alzheimer chegar”.

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Recebi uma cartilhazinha sobre as questões sexuais mais prementes, explicando cada um dos tipos de orientação sexual à disposição do cidadão. Não entendi com muita clareza a diferença entre algumas das opções, mas não vamos brigar por isso; aliás, continuo achando que ninguém tem nada com a vida dos outros; por mim, podem fazer o que quiserem com suas vidas. Mas descobri que o Aurélio, que tanto estudou nossa língua, está errado: travesti é substantivo feminino e não masculino como aparece no dicionário. Aliás, os franceses, que inventaram o termo, também estão errados. Acima de tudo, porém, descobri que estou velho.

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