Brasília-DF,
25/MAI/2018

Crônica da semana: Samba para Brasília

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Paulo Pestana Publicação:20/04/2018 06:00Atualização:19/04/2018 16:41
Brasília dá samba. E faz tempo: mais até do que os 58 anos que a cidade está completando. Antes mesmo da inauguração, já havia canções saudando a nova capital, a exemplo de Vou pra Goiás, gravada por Nelson Gonçalves —  tinha também o pessoal do contra, caso de Não vou pra Brasília, de Billy Blanco. Calcula-se em mais de 70 as músicas saudando ou criticando a cidade.

Desde então, Brasília passou a fazer as próprias músicas em vários ritmos, do rock ao choro, calando algumas pessoas que confundem a cidade com o Campo da Esperança e pedem silêncio absoluto. A revisão da Lei do Silêncio dorme nas gavetas da Câmara Legislativa, impedindo músicos de trabalhar e o resto de nós de ouvir.

O que pouca gente se lembra —  ou sabe —  é que, já consolidada como capital, em 1969, Brasília ganhou duas homenagens de artistas que já estavam radicados por aqui e que chegaram a lançar um disquinho hoje raríssimo. São dois sambas-exaltação, ambos de Lauro Passos e Altamiro Cruz, gravados por Fernando Lopes.

Aquarela de Brasília é o lado A do compacto simples. Gravada no Rio de Janeiro com arranjo pomposo e acompanhamento do maestro Pereira dos Santos e orquestra, a canção narra o sonho de Dom Bosco transformado em realidade, com direito a uma espécie de exposição inicial antes do samba propriamente dito, como é comum nas exaltações.
Metais dão o tom esfuziante que o gênero exige desde que apareceu em outubro de 1939, quando Ary Barroso lançou Aquarela do Brasil, gravada por Francisco Alves, com arranjo de Radamés Gnattali, inaugurando um estilo mais sofisticado de composição, mas que se caracterizaria mesmo pelas letras ufanistas. Antes, Aracy Cortes havia cantado a música no teatro, mas não conta.

Barroso voltaria à carga em 1942 com Isso aqui o que é, gravada por Moraes Neto. Pouco antes, em 1940, o indefectível Francisco Alves havia registrado Onde o céu azul é mais azul (de João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho), e em 1941, Canta, Brasil (de Vermelho e David Nasser). Escolas de samba ainda hoje usam sambas-exaltação para esquentar, antes do desfile.

No samba brasiliense, as imagens são quase bíblicas, citando milagre —  “viu a chuva de prata cair sobre a mata em favos de mel, viu as águas cristalinas que banhavam as campinas do nosso Brasil”. O destaque é a interpretação do goiano Fernando Lopes, que ainda hoje está na ativa, dando canjas domingueiras n’O Grao, bar do Lago Norte. O agudo final é um espetáculo de precisão.

O lado B mostra outro samba, O sonho de Dom Bosco, que começa com um toque de pistom anunciando os abrasivos metais, novamente a cargo de Pereira dos Santos, com Fernando Lopes caprichando nos vibratos.  Na letra, bairrismo puro: “Brasília tua voz fala mais alto, és rainha do planalto, tens beleza sem igual. Brasília tens um lindo horizonte, és planície não tem montes, o teu céu é colossal”.  Parabéns, Brasília!

• As duas gravações podem ser ouvidas no blog http://blogs.correiobraziliense.com.br/paulopestana/

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