Brasília-DF,
14/AGO/2018

Crônica da semana: Superstições

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Paulo Pestana Publicação:01/06/2018 06:00
Tenho um amigo que não fala a palavra “azar” por achar que vai atrair alguma mandinga; outro camarada se recusa a ir ao cemitério —  “quem não é visto não é lembrado”, repete, acreditando que a figura nefasta está sempre à espreita, de foice na mão. E também conheço um que não fala “desgraça”; prefere trocar por “infortúnio” — que é a mesma coisa, com letrinhas diferentes.

muita gente se recusa a viajar de avião, não apenas por medo, mas pela certeza de que o destino está traçado e o fim será num acidente aéreo; foi o caso do cantor Francisco Alves, que também não falava a palavra morte ou o verbo morrer. Não adiantou. Feneceu assim mesmo, num acidente de carro, provocando uma das maiores comoções populares que o país viveu.

Algumas superstições são explicáveis, como não passar debaixo da escada, que pode ter origem nas guerras medievais, quando óleo fervente era derramado sobre as escadas encostadas às muralhas. Assim como a crença de que derrubar sal causa alguma desgraça, popularizada pelo quadro A santa ceia, de Leonardo da Vinci, que mostra Judas derrubando o saleiro —  para resolver a urucubaca, recomenda-se jogar uma pitada sobre o ombro esquerdo.
Há quem acredite que colocar pães de cabeça para baixo na mesa vai trazer problemas. O costume vem da França medieval, quando os pães reservados aos carrascos eram colocados assim. E ninguém queria problemas com aquela categoria profissional.

Mas superstição não acaba aí, tem para todo gosto. A discussão no boteco era para saber se é verdade que leite com manga faz mal —  não era preciso ter um médico perto, mas assim mesmo havia e ele disse pela enésima vez que era uma bobagem, provavelmente nascida na época dos senhores de engenho, para que os escravos não tomassem leite.

Como acontece sempre numa mesa de bar, uma faísca provoca um incêndio, e alguém lembrou do tempo em que alguns acreditavam que tomar café quente no sol deixava a boca torta e que nascia verruga no dedo de quem apontasse para uma estrela. Também se dizia que cortar as unhas à noite deixava o sujeito pobre.

Um saruê cruzou a rua lentamente, interrompendo a conversa por alguns minutos; como não era um gato preto, logo alguém retomou a meada, mostrando que o assunto tinha potencial, porque no bar não há conversa que dure muito.
A retomada veio com um toque de safadeza na informação de que famílias tailandesas mantêm um falo de madeira exposto em casa para dar sorte, como os romanos faziam em homenagem a Dionísio. Mais ou menos como ferraduras e pés de coelho.

E cada um ia falando das superstições que conhecia. Até então calado, o Faixa soltou a pérola da noite: para alguns argentinos, garantiu, falar – ou ouvir – o nome do ex-presidente Menen é sinal de azar. A reação é a mesma dos italianos quando cruzam com um grupo de freiras: passar as mãos pelas partes pudentas, como forma de anular o mau augúrio.

Fiquei imaginando se a moda pega no Brasil.

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