Brasília-DF,
14/NOV/2018

Crônica da semana: Absurdos musicais

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Paulo Pestana Publicação:10/08/2018 06:00
O prazer de ouvir música pode ser alcançado de várias maneiras, inclusive físicas —  e antes que os maledicentes se manifestem, quero dizer que estou falando de dança. Algumas vezes, porém, bastam uma poltrona e um copo longo, uma dose de uísque e pedras de gelo. E o disco começa a girar, oferecendo surpresas.

naquela noite era um CD de choro; depois das duas primeiras faixas, entrou um ágil solo de trompete apresentando uma melodia saltitante, cheia de modulações, um desafio para qualquer instrumentista, que logo acabou com o sossego. Não conhecia a música, e fui procurar na capinha: Macaca na Zona.
Não conseguiria achar título mais apropriado. Choro composto por Cândido Pereira da Silva, o Candinho do Trombone, parece mesmo relatar as peripécias de um símio bagunceiro num ambiente bagunçado.

Mais adiante, mesmo disco, o compositor reaparece com Cachorro de cartola e Meu chapéu virou pandeiro. Enquanto eu ouvia, conversava com as pedrinhas de gelo: onde é que este sujeito, um chorão que viveu de 1879 a 1960 e deixou uma obra rica e ainda pouco explorada, achava esses nomes. É uma característica do chorinho. O que não falta é choro com nome esquisito ou engraçado. Como a música é instrumental e carrega elementos íntimos inescrutáveis, o compositor pode se dar ao luxo de ter tanta liberdade no título quanto nos temas musicais.

Ainda assim, o ouvinte pode facilmente entender porque Bororó chamou de Curare o veneno com o que os índios embebiam as flechas, uma de suas músicas mais famosas. Da mesma forma, Ernesto Nazareth acertou na mosca ao batizar Brejeiro.
Há homenagens, inclusive ao próprio compositor, como Luiz Americano na P.R.E. 3, que se tornou um clássico e narraria uma apresentação do autor naquela emissora de rádio.  É também assim com o insinuante choro André de Sapato Novo, que mostra uma impressão do autor, André Vitor Correia, ao estrear um pisante.

É fácil entender que o mesmo Luiz Americano se inspirou num bafafá para dar nome a Intrigas no Boteco do Padilha, mas saber porque Severino Araújo resolveu chamar um choro de Espinha de bacalhau é bem mais complicado; Fausto Nilo, muitos anos depois, fez uma letra que tenta explicar. Mas não ajuda muito.
A história é parecida com a de Urubu malandro que, recolhido do folclore, tornou-se um dos temas favoritos dos chorões por abrir espaço para improvisações, e que anos depois ganhou letra de Braguinha, que ainda descobriu que o bicho sabe mais que um dotô.

Também é difícil saber porque Mário Mascarenhas apelidou um de seus melhores choros de Papagaio embriagado; o título bem que podia ser aberto, para cada ouvinte oferecer um nome, ainda mais que a composição tem duas partes distintas.
Enfim, a imaginação dos chorões voa, tanto na criação dos temas —  incluindo as armadilhas para músicos incautos —  quanto na hora de titular. E assim pode-se encontrar Não chaquaia, moço (de Guio de Moraes), Corta-jaca (de Chiquinha Gonzaga), Arranca toco (Meira) e mais uma infinidade de choros excepcionais. O segredo é não tentar entender.

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