Brasília-DF,
14/NOV/2018

Crônica da semana: Por via das dúvidas

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Paulo Pestana Publicação:24/08/2018 06:00
A moça levantou-se da mesa e chegou indignada ao balcão: “Como é que não tem Heineken?” A dona do bar ainda tentou explicar que a distribuidora não entregou e que as últimas garrafas tinham sido vendidas, mas que havia muitas outras marcas nas geladeiras, com cervejas de todos os tipos — pilsen, puro malte, trigo, larger—, todas bem geladas.

É preciso dizer que a moça deu sorte. Dono de bar não é exatamente conhecido pelo bom humor. Treinados na arte de aturar bêbado chato, filão e zé ruelas em geral, sabem ser grossos como papel de embrulhar prego.
 
Essa, aliás, é uma expressão de Silvio Ronaldo, um gentil homem, quase um fidalgo, que revela o seu Mister Hyde — hediondo personagem de Robert Louis Stevenson — quando encontra alguém das categorias classificadas no parágrafo anterior nas dependências do Silvio’s, na 114 Norte.
 
Voltando ao caso, a moça não engoliu a explicação e continuou reclamando a falta da cerveja favorita, dizendo que não podia beber outra. A dona do bar foi fisgada pela curiosidade, mas antes mesmo que precisasse perguntar alguma coisa, a outra respondeu: “As outras cervejas engordam”.
 
Mesmo da mesa, a muitos metros de distância, deu para ouvir o pensamento da dona do bar. Afinal, a moça não era exatamente a Twiggy, aquela modelo que, nos anos 1960, lançou a moda das mulheres esquálidas e de visual quase andrógino. Ao contrário, a nossa personagem é bem fornida. Contrariada, ainda que cliente antiga, ela preferiu ficar com sede e manter a forma. Foi embora.
Era a oportunidade perfeita para comentar o caso — afinal, como ensinou Ariano Suassuna, falar mal das pessoas na frente delas não é bom, constrange. A dona do bar, depois de uma gargalhada, disse: “Ela está bebendo a cerveja errada!”
 
Mas, na mesa, claro que ninguém falou da forma física da moça; além de serem pessoas distintas, não havia nenhum Adonis no recinto e, como dizem nossos paizinhos lusos, o roto não fala do esfarrapado.
As pessoas parecem acreditar em tudo que querem crer, mesmo contra todas as evidências, científicas ou empíricas. Toda cerveja tem caloria e, portanto, engorda; uma latinha de cerveja equivale a um pãozinho e meio, mas um copinho de 200ml de Heineken tem as mesmas 149 calorias encontradas em um litro de Skol ou Brahma.
 
Há cervejas com mais calorias, como a Caracu — 236; isso sem o ovo cru — e a Serramalte, que chega a 294. Mas, como toda bebida alcoólica, a cerveja engorda, porque o álcool inibe a capacidade do corpo humano de metabolizar outras gorduras, como a das comidinhas. Portanto, é só seguir o reclame e beber com moderação. E evitar os verdadeiros vilões: os petiscos.
 
Ficamos olhando os copos. Cada qual procurando o teor calórico do copo em frente e olhando para a própria pança. O pessoal do uísque pensou até em parar de reclamar do exíguo choro depois de descobrir que uma dose carrega 120 calorias. Ainda impactado, um que bebia sua Original acusou o golpe. Por via das dúvidas, pediu uma Heineken.

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