Brasília-DF,
24/MAI/2019

Crônica da semana: A farmácia venceu o bar

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Paulo Pestana Publicação:17/05/2019 06:00
Bar fechado é uma desolação. Mesmo se a gente souber que ele vai reabrir em alguns dias. Os botecos contam a história de uma cidade, abrigam os personagens reais que formam a comunidade; é onde o executivo vai sem gravata, o operário tem voz e o político fica de orelha quente. O bar é a tribuna do homem comum, verdadeira fortaleza da cidadania.

Pois o só Drinks fechou as portas temporariamente, para reformas. Precisava. De novo, ali, só mesmo os televisores que exibem jogos de futebol; o resto andava caindo aos pedaços. Mas isso não diminui o problema: quem frequenta determinado boteco não aceita mudança muito facilmente, há uma relação de dependência envolvida.

O Só Drinks tem a peculiaridade de abrigar a torcida do Botafogo em Brasília —  a maldade das torcidas adversárias diz que cabem todos em frente ao balcão —  e exibe um enorme escudo do clube carioca na parede externa. O dono, Nilton, que ganhou o nome como uma homenagem a um integrante do olimpo alvinegro, a enciclopédia Nilton Santos, também é peculiar: não é mal-humorado e trata bem os clientes, ao contrário dos colegas de profissão.

Ainda no campo das características, o bar oferece a comodidade de ter uma farmácia na porta ao lado e as contas podem ser unificadas — é outro negócio do mesmo Nilton. A língua afiada do inimigo diz que são negócios afins: como todo botafoguense seria doente, precisa de cuidados; mas é bobagem — até porque para isso não há cura ou lenitivo que dê jeito.

Mas essa preferência do Nilton em proteger os frascos e comprimidos é o motivo das reclamações dos frequentadores: no período em que durar a reforma, a farmácia continuará aberta —  alugou uma loja na mesma entrequadra — e o boteco fica fechado.

A hipótese mais aceita para a decisão do comerciante é de que os frequentadores, por serem na maioria botafoguenses, estão ficando mais velhos e, como não há renovação, ele teria preferido atender os companheiros de infortúnio, ou melhor, torcida. Mas é óbvio que esta é a tese de um flamenguista gaiato.

O fato irrecorrível é que há uma penca de frequentadores deslocados da realidade. O fechamento temporário de um boteco, mais do que o definitivo, causa sintomas graves que advêm da abstinência. Há quem se comporte como zumbi, perambulando na calçada à procura do boteco perdido, como aconteceu no sábado em que o Botafogo venceu o Fluminense.

O grande desafio do Nilton agora será vencer a superstição atávica e intransferível dos botafoguenses. É que o time, contra todos os prognósticos, faz uma boa campanha neste início de Campeonato Brasileiro. E botafoguense é bicho estranho: acredita que vira-lata tem influência no jogo, que se as cortinas da sede do clube não estiverem amarradas é sinal de derrota, ou que só é campeão se algum ex-jogador do Flamengo estiver no elenco.

Só falta agora algum espírito de porco tentar ligar uma coisa a outra e dizer que o boteco fechado é sinal que o time vai se dar bem no campeonato.

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