Brasília-DF,
12/NOV/2019

Crônica da semana: O sábio desmascarado

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Paulo Pestana Publicação:18/10/2019 06:01Atualização:17/10/2019 20:16
A gente aprende em todo lugar. Numa caminhada peripatética, sala de aula ou tatame, cada mestre tem um lugar preferido para passar seus conhecimentos adiante. O Professor — apenas um apelido carinhoso, homenagem à sisudez e não à profissão — prefere expor seus conhecimentos na mesa do bar. Bebendo café. Muito café.

É um mestre que não ensina pelo exemplo, uma vez que consegue misturar café coado com o mesmo frango a passarinho que acompanha o pessoal da cerveja e o amendoim torrado da moçada do uísque. O importante são as palavras, quase sempre na forma de pílulas de sabedoria, que nos fazem desconfiar de que ele passa o dia decorando livros de autoajuda.

No papo de boteco, tudo é permitido, mas ninguém escapa da galhofa. Ele é capaz de interromper uma discussão sobre futebol com uma frase qualquer, dita com ar grave — "quando você se preocupa com a vida dos outros, acaba se esquecendo de viver sua própria vida", disse outro dia. Convenhamos: é uma afirmação que acaba com qualquer conversa.

E, invariavelmente, ele passa os olhos por todos os presentes, como se estivesse analisando reações. Normalmente ninguém comenta as frases, certamente por medo de provocar uma reação ainda pior: a explicação.

Recentemente ele disparou: "Quem diz que é infeliz é apenas um pobre coitado buscando consolo na autopiedade". Alguém decidiu retrucar, dizendo apenas que a infelicidade, ainda que passageira, é um sentimento que alcança a todos. A digressão que se seguiu foi mais aborrecida do que filme iraniano.

O Professor começou em Tales de Mileto, Demócrito de Abdera e foi avançando pela filosofia até Bertrand Russel, atravessando pelo menos dois milênios e sete séculos de pensamento. Podia ter parado em Epicuro, que defendia o prazer como fundamento da felicidade, até porque ninguém ali estava feliz com a conversa.

Ele não é um inconveniente; ao contrário, é agradável, e os hábitos estranhos acrescentam um certo charme. É um desses sujeitos que a gente pergunta onde está quando não comparece. Há quem brinque dizendo que somos os gafanhotos dele, piada que só faz sentido para quem viu o seriado Kung-Fu, nos tempos da televisão a vapor.

Às vezes, dá vontade de ficar com um bloquinho, anotando o que ele diz. Não que seja um sujeito original, mas nenhum desses caras que ganham uma grana preta com livros de autoajuda são originais; são cozinheiros de lugares comuns, pessoas com capacidade de dourar o óbvio, como aquele rei das orelhas de asno.

"O orgulho demasiado é o primeiro passo para o egocentrismo absoluto, e isso é exibicionismo, não tem valor", ele falou, desta vez sem polêmica, até porque ninguém entendeu muito o despropósito da expressão. Mas outro dia ele chamou a atenção de todo o botequim: "Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos aumenta o desgaste da nossa delicadeza".

Caiu a máscara. O Professor é um plagiador, pois a frase é de Nelson Rodrigues. As outras não sabemos de quem são, mas desconfiamos de que não são dele.

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